09.23.08
A educação dos filhos – Sta Catarina de Sena
Meus caros leitores, bom dia!
Recebi por e-mail uma belíssima carta de Santa Catarina de Sena que fala sobre a educação dos filhos e gostaria de repassá-la aqui no blog.
Tenham uma ótima leitura
Salve Maria!
Aline Souza
A Educação cristã dos filhos
Para João Perotti
Caríssimo e muito querido filho no doce Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver como autêntico pai que nutre, orienta e governa vossa família no santo temor de Deus, de modo que vós sejais uma árvore frutífera e vossos filhos sejam bons e virtuosos.
Na educação, Cristo é o exemplo
Meu filho, sabeis que uma árvore, para produzir frutos, deve ser de boa qualidade e bem formada. Assim, afirmo que vossa alma também deve ser bem formada no autêntico e santo temor e amor de Deus. Se por acaso disséssemos: “Eu não sei como aperfeiçoar-me”, eis que o Verbo, Filho de Deus, tornou-se nosso exemplar. Ele disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Quem vai por esse caminho, não poderá errar e produzirá o fruto da vida. Essa vida alimentará os vossos filhos espirituais, mas sobretudo os filhos naturais, que receberão o perfume e a essência daquela vida.
Qual foi a maneira de viver do bondoso Mestre, o imaculado Cordeiro? Ele viveu em profunda humildade. Sendo Deus, humilhou-se diante dos homens. Sua vida foi de sofrimentos, tormentos, acusações, dores e cansaços e por fim acabou na terrível morte de cruz. Desprezando prazeres e satisfações pessoais, sempre caminhou pelas estradas mais humildes e desprezadas. E qual foi o resultado dessa caminhada para nós? Que qualquer pessoa pode segui-Lo, se quiser. Já ouviste contar de um ato de paciência semelhante ao seu, quando estava pregado na cruz? Ao grito dos judeus: “Crucifica-o”, ele respondia: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Desmedida bondade divina! Além de perdoar, apresenta justificações ao Pai! Cristo é um manso Cordeiro e dele ninguém ouviu qualquer queixa. Ele nos revelou um grande amor, pois foi o amor que o conservou pregado na cruz. Não foram os cravos, nem a madeira. Unicamente o amor. Cristo foi obediente ao Pai celeste, nunca pensou em si, mas somente na glória do Pai e em nossa salvação.
Meu bondoso filho, eis o caminho que desejo que sigais, para serdes um bom pai, nutrindo vossa alma e a alma dos filhos que Deus vos deu, fazendo-os crescer de virtude em virtude. Lembrai-vos, porém, que não podemos obter as virtudes por nós mesmos. Somos todos árvores silvestres. Temos de fazer um enxerto naquela doce árvore de Cristo crucificado, mediante o amor e o desejo. Vendo-nos tão amados por Cristo que nos deu a vida, sentimo-nos obrigados a formar uma só coisa com Ele. Inebriada de amor, a pessoa não aceita seguir outro caminho senão o seu Mestre. Despreza o prazer e as consolações do mundo, porque Cristo os evitou. Ama a virtude, despreza o vício. Prefere morrer a ofender o Criador.
Nem suportará que os próprios filhos e a família o ofendam. Repreenderá até, como autêntico pai. E quanto pode, exige que sigam o próprio exemplo. É sobre isso que vos peço atenção. Lembranças à vossa família e muitas recomendações à mãe e à esposa. De modo especial abençoai aquela filha, eu quero que seja religiosa e consagrada a Cristo.
Conclusão
Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor.
(carta 156, Santa Catarina de Sena – pág. 510 a 511)
09.18.08
O uso do véu dentro da Igreja
Meus queridos leitores, bom dia!
Sei que faz um bom tempo que não escrevo nada no meu blog, mas mesmo assim gostaria de agradecer os acessos que tenho tido, isso mostra que de alguma forma o que eu coloco aqui serve de consulta ou até mesmo para tirar as dúvidas de alguém. Muito obrigada.
Em falar em tirar dúvidas, hoje vou colocar algumas questões em que muitas pessoas, principalmente as mulheres, não sabem o seu significado: o uso do véu dentro da Igreja.
Algo de tão grande importância e que infelizmente se perdeu o costume depois do Concílio Vaticano II.
Aqui colocarei a explicação “moral” e “histórica” do porque a mulher usar o véu.
Na moral:
Simboliza um sinal de pureza, para as senhoritas – que neste caso se usa o véu branco.
E é um símbolo de pureza, respeito para com Deus e com o seu marido, para as senhoras – que neste caso se usa o véu preto.
Um outro motivo que particularmente acho muito bonito, é que o homem é a glória de Deus e a mulher é a glória do homem, sendo está não podendo aparecer mais na casa de Deus do que o próprio homem.
Na história:
No tempo de Abraão, quem fazia as orações na família e o único que podia oferecer sacrifícios a Deus, era o homem da casa, no caso Marido ou Pai. A mulher não podia fazer um sacrifício em perdão dos seus pecados diretamente a Deus. Tinha que ter o intermédio do marido/pai para isso. Suas orações só chegavam a Deus através das orações do chefe da casa.
No tempo de Moisés, não mudou muita coisa, só que ao invés de ser o chefe da casa que fazia os sacrifícios era o sacerdote, porém este também era chefe de casa, ou seja, rei e sacerdote. Só que mesmo com essa mudança a mulher ainda para fazer suas orações a Deus tinha que ser por intermédio do chefe da casa ou do sacerdote.
Os sacrifícios eram feitos para que os homens pudessem pedir perdão a Deus por uma falta que haviam cometidos, então sempre se tinha a necessidade de oferecer aquilo que eles tinham de melhor.
Mas o que de melhor eles poderia oferecer a Deus se não a sua própria vida? Mas isso não seria possível, afinal é da natureza própria do homem guardar a sua própria vida. Como eles não poderiam oferecer isso, ofereciam o que tinham de melhor valor, ou seja, ofereciam sempre o melhor animal da casa (cordeiro, ovelha, etc.) para dar em sacrifício a Deus pelos erros cometidos, não só por ele próprio, mas pela família inteira.
Com a vinda de Nosso Senhor, não se teve mais a necessidade de oferecer sacrifícios a Deus, pois o próprio Deus já havia feito o sacrifício infinito para pagar a preço da culpa do pecado original. Deu o seu próprio filho em sacrifício para pagar a mancha desse pecado.
Hoje quem faz esse mesmo sacrifício, é o padre na hora da consagração, sendo ele rei, profeta e sacerdote. Como agora é o próprio padre que sempre está renovando este sacrifício em cada missa celebrada, não se tem mais a necessidade do chefe da casa oferecer outros tipos de sacrifícios. Afinal nossa culpa pelo pecado original foi pago pelo sangue derramado de Nosso Senhor.
Como diz São Paulo o cabelo da mulher é a honra da casa, ou seja, para saber como é o andamento de uma casa, olha-se sempre para o cabelo da mulher. Na verdade o cabelo é um sinal de autorizada onde mostra como uma casa é governada.
Depois da vinda de Nosso Senhor a mulher ganhou de certa forma uma “liberdade” dentro da Igreja, sendo que antes ela só podia fazer orações a Deus através do marido ou do pai e agora ela poderia fazer as orações por si mesmo não precisando mais de intermédio, pode-se rezar pedindo perdão dos seus pecados ou misericórdia diretamente a Deus.
E como disse antes, o cabelo da mulher sendo um símbolo de autoridade na família e na sociedade, dentro da Igreja ele os deve cobrir, para que mostre o seu respeito e sua subordinação ao próprio Deus Nosso Senhor. Mostrando que apesar de agora ela poder fazer suas orações por si mesmo, ela não é nada diante de Deus.
Uma mulher que não usa véu dentro da Igreja é uma mulher que indiretamente está afrontando a Deus, mostrando que ela não precisa se subordinar a ninguém, e que ela é muito mais do que o próprio Deus.
Queria poder deixar aqui algo bem claro, que o gesto mais bonito e de maior reconhecimento da autoridade que Nosso Senhor tem em nossas vidas é na sua presença usar o véu.
Espero eu que com esse esclarecimento eu consiga tirar as dúvidas de muitas moças e senhoras que se sentem envergonhadas em usar o véu, afinal não se deve ter vergonha de algo que mostra claramente a Deus o quanto nós O amamos, o quanto O respeitamos e O temos como Nosso Senhor.
No mais vou ficando por aqui.
Salve Maria!
In Cord Jesu et Mariae semper,
Aline Souza
04.24.08
Biografia de São Tomás – 3º capítulo
3º Capítulo – o Abade Fugitivo.
A família de Aquino era parente do Imperador da época Frederico II, que por sua vez insistia em fazer guerra com a Igreja, afinal achava que era o imperador que deveria consagrar os bispos e não o Papa.
São Tomás não mostrava nenhum afeto pelo seu tio, afinal era um imperador que fazia de tudo contra o Papa. Tomás quanto mais obtinha laços de sangue com o Império mais ele se aproximava do Papa.
O Imperador não se contentando com a situação, revoltava-se contra a Igreja, fazendo assim suas guerras, destruindo mosteiros e conventos, saqueando Igrejas, etc.
A família de Aquino também era contra o Papa e inclusive o Conde de Aquino era guerreiro de Frederico II, onde destruía os mosteiros.
Era uma família muito grande com sete filhos, e todos eram robustos e lutavam nas guerras, menos um.
O filho mais novo dos Aquino não mostrava interesse em guerras, pelo contrário era tardio, pesado e mal falava em sua casa, e quando falava era apenas para perguntar:
- Que é Deus?
Mesmo que ninguém soubesse responder essa pergunta ao menino, ele interiormente, um dia saberia encontrar a resposta.
Tomás de Aquino era o último dos filhos dessa família e os pais sabiam que para ele não restava outra alternativa senão colocá-lo num mosteiro ou seguir alguma ordem parecida.
Para seus pais isso também se tratava de uma jogada política, afim de, colocá-lo no mesmo mosteiro que há um tempo eles saquearam.
Mas a idéia era que um dia seu filho se tornasse abade do mesmo e obtivesse cargos elevados dentro do mesmo para poder enaltecer a família e continuar com essa jogada política junto com o Imperador.
Tomás de Aquino não se deteve em ir para o mosteiro, e como seus pais queriam foi recebido numa cerimônia solene e cheia de pomposidades.
Mas algum tempo depois resolveu ir para uma nova ordem que estava surgindo no final da Idade Média, que era a ordem de Domingos, ou ordem dominicana. Quando foi contar para os seus pais, os mesmo quase pularam em cima do seu pescoço, desaprovando por completo a decisão do filho.
Afinal isso já não seria mais para eles uma jogada política e estaria demonstrando a vontade de Tomás de Aquino de servia o Papa e estar contra as idéia de Frederico II.
Mas não teve jeito e Tomás de Aquino mudou de ordem, sua mãe depois de um certo tempo acabou por se acostumar com a idéia e ficou do lado do filho, mas seus pais e seus irmão de maneira alguma aceitaram.
Uma certa vez Tomás estava caminhando pela estrada e foi saqueado por dois rapazes que rasgaram suas roupas, jogaram-no no chão, bateram nele. Esses rapazes eram seus irmão que desde então não pararam de o perseguir.
Mas desta vez o levaram junto com eles, um de cada lado segurando Tomás de Aquino, como se fosse dois policiais arrastando um bandido para a prisão e assim o prenderam numa torre e o deixaram trancado lá e escondido de tudo e de todos.
Certa vez colocaram com ele nessa torre uma mulher toda requintada e pintada, para fazer com que ele fosse tentado das piores formas possíveis, e acreditavam que com aquilo ele não agüentaria e cairia nas mãos daquela mulher, contrariando a forma de vida que havia decido para tal.
Tomás de Aquino começou a ficar tão nervoso com a presença daquela mulher ali na sala com ele que num passo de raiva pegou um pedaço de uma tocha e saiu gritando feito um doido pelo quarto, ameaçando atear fogo no quanto inteiro.
Como não era de se esperar a mulher começou a gritar de susto e saiu correndo do quarto e num estalo Tomás saiu correndo atrás dela até a porta no qual a fechou, trancou e voltou a sentar em sua cadeira de estudo e ali ficou.
04.10.08
A LADAINHA DE NOSSA SENHORA
A LADAINHA DE NOSSA SENHORA
Pe. Th. Calmel, O. P.
Na ladainha invocamos Nossa Senhora sucessivamente em cinco prerrogativas distintas que aliás se completam: sob seus títulos de mãe e de virgem, como obra prima de Deus designada em figuras e símbolos, como socorro em toda espécie de aflições e finalmente como rainha por excelência.
Algumas dessas desinências pedem uma palavra de esclarecimento. Espelho de justiça: o termo justiça é usado no sentido bíblico de santidade; se diz da Virgem que ela é espelho de justiça por ser ela quem melhor reflete a santidade de Deus.
O termo vaso, três vezes repetido, tem também sentido bíblico. Neste caso parece legítimo dar-lhe a significação de ser, de criatura. Maria é vaso espiritual porque é a criatura, a única e singular criatura humana, que foi sempre residência do Espírito Santo.
É vaso honorífico no sentido de que é digna de toda honra mais do que qualquer criatura no céu e na terra. Finalmente como Nossa Senhora nunca deixo de ser devotada aos desígnios de Deus — ao seu mais alto desígnio que é a encarnação redentora — reconhecemos ser ela animada por insigne devoção: eis a serva do senhor. Ninguém ignora que a rosa é símbolo de amor.
Já que Maria é cheia de graça e de amor nós a proclamamos rosa mística. Maria nos protege com força e inteligência de mãe contra a Serpente infernal e seus sequazes, por isso pode ser comparada à uma torre. Ela nos protege tanto mais firmemente contra os liames do pecado porque ela própria nunca a eles deu a menor deixa, é pura, imaculada, é o que sugere, embora palidamente, a cor do marfim.
Pureza e proteção estão sempre conexas nas intervenções de Nossa Senhora, por isso é torre de marfim. Em seu seio virginal Maria deu ao Filho de Deus a natureza humana, é comparada, então, a uma moradia de beleza inestimável: casa de ouro.
A arca da aliança abrigava somente as Tábuas da Lei, mas Maria abrigou aquele que o céu e a terra não podem conter.
Maria se avizinha de Deus muito mais do que o mais sublime dos anjos já que é mãe de Deus; se avizinha de Deus mais próxima de um outro modo, porque deu corpo ao FIlho de Deus e se acha então mais elevada que os anjos, tem sobre eles autoridades e estes ficam radiantes por serem súditos de seu império, e se sentem honrados de executar suas ordens.
Ela é verdadeiramente a Rainha dos Anjos. Os patriarcas e os profetas que esperavam e anunciavam o Messias, o Redentor da humanidade culpada, deviam inevitavelmente levantar os olhos para a Mãe do Messias, Aquela que finalmente iria esmagar a cabeça da Serpente.
Esta espera que se prolongou por séculos, começara no coração de Adão e Eva, os primeiros pais do gênero humano, logo após o primeiro pecado e o primeiro perdão do Pai Celeste. A espera e a esperança, o anúncio profético ficaram mais precisos ao longo do Antigo Testamento. E assim os Patriarcas e Profetas anunciaram ao mesmo tempo o Redentor e Rei dos reis e a Virgem Santíssima que o traria ao mundo e reinaria à sua direita (Salmo 44: astitit Regina a dextris tuis).
Com toda a propriedade Maria é invocada como Rainha dos Patriarcas e dos Profetas.
Depois ela veio na véspera do dia em que iria começar a plenitude dos tempos, na primeira autora que precederia imediatamente o dia de nossa libertação, eis que sobre o galho de Jessé uma flor se abria. Apareceu enfim no mundo a meninazinha que os Patriarcas e Profetas tanto esperavam, a filha de Joaquim e Ana, a filha de Adão e Eva que não tinha vestígios sequer de pecado dos primeiros pais.
Ela veio cheia de graça e de santidade, mais santa do que jamais seriam os santos na Igreja do Santo dos santos. Ela está na linhagem de santidade só a ela reservada: a santidade de mulher bendita que deveria dar a natureza humana a uma Pessoa divina; santidade daquela que podendo dizer a Deus, com toda propriedade, meu Filho é introduzida por isso mesmo na intimidade da Trindade muito além do que qualquer outra criatura. Situada numa linha de santidade absolutamente própria e reservada, por ser tão próxima do Redentor ao ponto de ser sua Mãe, é inevitável que ela possua em super-abundância a graça e a caridade que forma os santos.
Sua pré-excelência em relação a eles é coisa necessária. Foi ela quem melhor penetrou os segredos do Evangelho, meditou-os em seu coração com mais fervor e inteligência que os Apóstolos e os evangelistas. Eis porque, sem ter pregado o Evangelho, é chamada de Rainha dos Apóstolos. Sua união à dolorosíssima paixão de Jesus foi mais dilacerante do que os suplícios dos maiores mártires, logo é Rainha dos Mártires.
Sem ter nunca celebrado os santos mistérios nem ter confessado a fé à maneira comum dos confessores, testemunhou desta fé na presença de Deus, dos anjos e dos bons homens com a força e a constância de santa Mãe de Deus; logo é com toda a justeza que podemos aclamá-la, Rainha dos Confessores.
Enfim, sua virgindade foi de tal modo humilde, transparente e penetrada de caridade para com Deus, que mereceu tornar-se mãe de Deus permanecendo virgem; de algum modo o Verbo de Deus se obriga a consagrar a virgindade daquela que lhe dava a natureza humana: verdadeiramente Rainha das Virgens, Rainha de todos os santos.
04.04.08
A Missa não é somente a Comunhão
A Missa não é somente a Comunhão
Pe. Matéo
http://www.permanencia.org.br/revista/vida/Mateo.htm
– VI –
A Missa
Faltam luzes acerca da missa, a não raro a educação sobre esse mistério de amor é incompleta. Compreender o mistério de fé do altar é mercê altíssima. Que regozijo, ainda que em penumbra!
Deve-se basear a piedade na doutrina; caso contrário, é piedade sentimental, piedade de poeta. Não são as flores o essencial, mas o altar. Quando não há altar, onde pondes as flores? Se não há um fundo de doutrina, sobre que apoiareis a piedade?…
Veni, Sancte Spiritus. Venha o Paráclito com suas luzes! Glória ao Pai, pelos incomparáveis dons que nos dera! Glória ao Filho, pelo mistério da Sexta-Feira Santa! Glória ao Paráclito, que nos ensinara a erigir o altar para imolar o Cordeiro sem mancha à glória da Trindade. Per Christum Dominum nostrum, pontífice, mediador e hóstia.
Dois milagres na Missa
Conforme o plano de Deus, deve a Santa Missa realizar sempre dois milagres [1]:
1º a transubstanciação do pão e do vinho;
2º a transubstanciação do padre celebrante e dos fiéis na virtude da comunhão.
O primeiro milagre nunca deixa de acontecer, ainda que o padre não seja um santo; mas o segundo milhares de vezes deixa de se realizar. Entregando-se a nós sob a forma de pão e vinho, Nosso Senhor quer consumir-nos, deixando-se consumir por nós. Consumi-lo é fácil, mas nos deixar devorar à nós supõe condições que o Cristo nem sempre encontra. Quer ele fazer-nos a mim e a vós vários Jesus, mas não lho permitimos.
Contava um padre sobre os reveses de sua paróquia, onde todavia entronizara o Sagrado Coração. “Pois bem! és tu um santo? E não por isso dizes a missa todos os dias! Se a missa não conseguiu santificar-te, poderia a entronização fazer milagres?”
Pode a missa fazer em nós maravilhas, SE a vivermos. A missa deve estar sempre em primeiro plano. Em vossa vocação, tendes um como sacerdócio real para concelebrar [2] a missa. Se viverdes a missa, sereis o que deveis ser.
Eis algo que aconteceu: o pequeno Luís estava rezando bem concentrado, chegando mesmo a prolongar-se na oração. Pergunta-lhe a tia: “Queres te chamar São Luís Gonzaga, ou um anjo, ou… – Não! Peço a Jesus me tornar um Jesus; peço-lhe me devorar como ele se deixa devorar!”
Não tinha mais que oito anos, esta criança. E que resposta!
A Santa Virgem e a Missa
Estudemos os três mistérios maiores da Santa Virgem, relacionados ao mistério da missa:
- Primeira cena: A anunciação… a encarnação… “Incarnatus est”.
Este é o milagre que se deve reproduzir na missa a cada manhã. A Virgem sentiu e compreendeu isto: Fiat!… Fiat, e ei-lo ali! vivo da mesma vida de Maria e como Maria.
Fiat! Ei-lo dentro de nós, vida de nossa vida, alma de nossa alma, coração de nosso coração. Dada a encarnação, vão dizer ele e Maria ao Pai: “Venha a nós o vosso reino! Bendito seja vosso nome! Seja feita a vossa vontade!”
Santos somos na virtude do cálice. Ele está em mim e eu nele. Rogai a Maria a explicação da relação entre o mistério do altar e a encarnação.
- Segunda cena: Natal e a apresentação no templo.
“Pai, Pai, diz Maria, este é vosso filho e o meu. Ele é vosso e também meu. Eu o possuo. Dou-vos para a glória vossa.” É o que se há de fazer no altar, uando ele está aí em vosso coração. Dizei ao Pai: “Posso-vos glirificar, sou grande, sou rico: a hóstia de meu coração é vosso Filho.”
Gesto singular o de Maria em Jerusalém no mistério da Apresentação! Repeti tal gesto a cada missa. Sois ricos de uma riqueza que sequer os anjos possuem. O anjo não pode celebrar; eu padre celebro; vós concelebram com o padre; participemos intimamente do sacrifício, então.
- Terceira cena: Sexta-Feira Santa
Maria aos pés da Cruz diz ao Pai: “Ele é meu e vosso; eu vô-lo ofereço. Em meio a soluços, canto vossa glória. Com minhas lágrimas e meu sangue, aceitai o Cordeiro que tira os pecados do mundo, aceitai o cálice.”
Vós, pobres criaturinhas, fazei como Maria, digam: “Sou coberto do manto real, aceitai o Cordeiro sem mancha. Sou a religiosa consagrada, Pai, queremos ele e eu glorificar-vos.”
De tão belo que é o mistério, não o compreenderíamos sem o Paráclito. Vinde, Espírito Santo, aumentai-me a fé para que veja eu o que não vejo, i. é, que veja, ainda que pouco, o que é ser padre como Maria em Jerusalém e no Calvário. Se o Espírito Santo dá-nos luz, veremos sem ver, seremos esclarecidos nas trevas da fé.
O que falta é a fé
Uma pobre criancinha camponesa, que só tinha umas poucas letras, recebeu um privilégio especial. Quando assistia a missa, ela via o que se passava no altar, via o que João e Madalena viram na Sexta-Feira Santa. Em sua cândida simplicidade, cria que todos viam o mesmo; assim, não tinha por isso qualquer vaidade.
Não dizeis: “Se fosse assim comigo!”, pois temos mais que isso: a fé. Os olhos desta criancinha pode-la-ia enganar; a fé não nos enganará: o que nos falta é a fé, e não os olhos. Teresinha jamais tivera tais visões, mas talvez visse mais. Há de se rasgar o véu com a fé e a oração. Veni, Sancte Spiritu… para abrasar-nos a fé.
Contar-vos-ei o que conto aos padres sobre esse tema. Observaram já o quadro que está aqui[3]; vou contar-vos algo que é a lembra perfeitamente esse quadro, mas sem ter que ver com ele. Estava celebrando a missa em uma capela comunitária, acho que uma missa fúnebre. Havia na primeira fila um “demônio” que não deveria estar ali; ele tinha a blasfêmia a figura e no gesto, com um sorriso de desdém. Grande fora a surpresa quando, chegado o momento da consagração, cai o demônio de joelhos; debate-se… ofega…: “Ah! Ah! Oh! Oh!”. Perguntavam se era “um ataque de loucura”. Terminada a missa, aquele homem interroga: “Onde está o padre que estava no altar?” Vieram dizer-me e, em poucos minutos, lá estava eu…
- Senhor, disse ele.
- Não se diz “Senhor”, e sim “padre”.
- Está bem! Padre, que fizestes no altar? É isso mesmo, que fazieis no altar?
- Celebrava a santa missa!?
- Que é a santa missa?
- Não sois católico?
- Não.
- Vossa mãezinha era católica?
- Sim.
- Bem, quando éreis criança ela vos disse que o Filho de Deus foi pregado na cruz em favor da humanidade, por mim e vós?
- Sim, ela mo dissera umas cem vezes.
- Pois bem, sabeis o que é o Calvário?
- Sim.
- Então, a missa é a mesma coisa.
- Mas, atentai que uns dez ou quinze minutos depois que chegastes, vós disaparecestes e no lugar, que beleza!… uma figura, oh! não sei como dizer… mexia os lábios, enquando o sangue caia no cálice… Oh! que maravilha! Durou uns dez minutos, depois a figura sumira e vós, vós retornastes.
Eis o que se deve enxergar a cada manhã em lugar do padre. Tomará a Santa Virgem vos ensine a orar, vos ensine a orara como ela orava na Sexta-Feira Santa, na comunhão dos sofrimentos e dores das divinas chagas. Imaginai a missa que teria celebrado Francisco de Assis, se fora padre! Infelizmente a missa é mais das vezes rotina para o padre e os fiéis.
Sabeis vós qual o grande culpado disso? Ele. Sim vós nos amastes em demasia, Jesus; vós nos destes em demasia. Se vós nos houvera dito para celebrar a missa uma vez por ano, oh! no entanto… há missa todos os dias! sim, destes-nos em demasia! Não desprezamo-la, claro, mas uma missa a mais ou a menos não nos perturba nem um pouco; antes, um milagre. Como se a missa não fosse ela um milagre. A missa é o maior e mais assombroso dos milagres! Quanto temo-la em conta? qual deferência tendes vós por ela?
Por que vi, não cri
Um figurão de Oxford, bom, honesto, mas incréu, casara-se com uma católica, mulher santa. Pouco a pouco ela lhe fala das verdades na religião. Conduziu-o a Roma junto aos jesuítas. Após dois anos de estudos e leituras, acreditou ela ele estar assaz instruído. Por ocasião de uma jornada eucarística, ela lhe pede para acompanhá-la, e ele aceita. Das quatro da manhã até às dez da noite, vão de igreja a igreja. Na volta, diz a mulher:
- Agora que viste, és ou não católico?
- As teorias do livro são muito bonitas, respondeu ele, mas a prática já não é tanto. Dizem que o Cristo está lá e o tratam daquela maneira?… Não acredito; por que vi, não acredito.
Certo dia, parei em uma igreja para rezar. Começava a missa. Escutei um como rumor de orações em voz alta. Que será?… Uma novena a Santo Antônio, depois a São Judas Tadeu, mais uma ainda a Santa Teresa: três santos que roubaram o lugar de Deus! como se a Virgem Santa e os demais santos não estivessem ali também para a missa. Fazei novenas pelas ruas, digo-vos; aqui é a missa, e para missa estão aqui. Se Teresinha e outros santos viessem para assistir a missa, que missa assistiriam!
Tenho entre as mãos um corporal vermelho sangue… que aconteceu? Uma menina mui decente se casou com um judeu que não fazia caso de religião. Eis que um dia, à mesa, falavam de Jesus Cristo presente na hóstia.
- Crês nisto de que ele está lá? disse o judeu.
- Sim, ele está lá!
- Não é forma de dizer?
- Não, ele está lá mesmo.
Então veio-lhe uma idéia para constatar se isso era verdade. Certa noite saiu e foi atè a sacristia, e disse ao sacristão: “Sou um cavalheiro, um advogado; queres me emprestar por esta noite as chaves da sacristia e do tabernáculo?” Ele as conseguiu. Às duas horas da manhã, entra na sacristia, penetra no santuário, abre o tabernáculo, estende o corporal sobre o altar, põe o cibório sobre o corporal… Estava tremendo, e respeitosamente pega uma hóstia e a observa: Era ou não verdade que o Cristo estava ali? Pega o canivete e, mais receoso ainda, parte a hóstia… Jorrou sangue… que cobriu o corporal, o altar, suas mãos. Ficou com medo, tocou os sinos a rebate. Correria, e que surpresa!
O padre é mais nobre que o anjo, o anjo não pode chamar o Cristo de meu irmão; nunca um anjo celebrou missa. Pertence o padre à família do Cristo.
Viver a Missa
Deve-se viver a missa, da missa e para a missa.
Qualquer devoção é insuficiente se a missa não for o centro de nossa vida; a missa é o altar, o resto apenas florezinhas que pomos aqui ou ali. Costumava dizer o cardeal Mercier: “Dêem-me um bom padre que viva a missa, e ei-lo um santo”. Pois bem! Daí-me uma religiosa que compreenda o cálice e a grandeza da missa; não morrerá ela boa e excelente, mas santa por canonizar. Se não se compreende o mistério do altar, se não se sabe o que o padre faz ali, limitamo-nos a nos distrair com rosários e novenas.
A única homenagem à Santíssima Trindade digna dela é a missa: Adoração, louvor, glória, amor, per Dominum nostrum Christum. Vossa missão se inicia na missa: as crianças, os pobres, os doentes viverão de vossa missa. Não começa a missão de uma religiosa no hospital ou na escola, mas no altar. A missa é a grande missão para a salvação das almas. A religiosa que sabe viver a missa é mais eloqüente que todos os predicadores. Não podeis seguir vossos filhos por todo canto, para conservá-los cristãos; mas o sangue deste Abel, que é Jesus, pode o que não podeis. Deveriam ser o cálice e a missa o dínamo das religiosas educadoras e hospitaleiras.
Meu pai era protestante, converteu-se por causa de minha mãe: ela nunca faltara à missa, apesar do muito trabalho que tinha. É preciso criar este ambiente de fé. Aqui no Canadá não existe as multidões que vemos nos outros países indo para a missa. O cálice é o maior arma do apostolado.
Durante a outra guerra [1914-1918] uma granada atingiu e feriu gravemente um diácono religioso. Recuperou-se bem aos poucos. Três anos depois, doente e sem forças, mal podendo falar ou andar, pede à sua mãe para levá-lo a Roma, para que o Papa lhe concedesse o ser padre. Disse o Santo Padre:
- Que tendes vós de especial?… Não podeis pregar nem ensinar o catecismo?
- Não, Santo Padre, mas meu cálice e meus ferimentos podem salvar as almas!
- Não podeis ir em missão, nem conferir os sacramentos?
- Santo Padre, meu Pai, por favor, pela salvação das almas.
- Sois inválido; qual a diferença entre um padre inválido ou diácono inválido?
- Oh! Santo Padre, meu querido Pai, eu imploro! por meu cálice e meus ferimentos!
com o sangue dos ferimentos dentro do cálice, salvarei mais almas!
O Papa mandou um médico, um bispo jesuíta, examiná-lo para saber se esse homem ferido podia celebrar válida e decentemente uma missa, e lhe foi dada a permissão. Que apostolado! Quem me dera tivesseis o mesmo vigor apostólico! Vossos sofrimentos, penas, agonias, responsabilidades – tudo enfim no cálice para a salvação das almas. Venha a nós o vosso reino! Venha a nós o vosso reino! Santificação pessoal, santificação comunitária.
O centro do mundo é o altar; o centro do altar, o cálice; no cálice, vosso
coração. A missa é a oração perfeita, é sólida, é pão saudável, e não chocolate; quando a dizemos, dizemos tudo. Tende obsessão pela missa. Se sairdes daqui cem, dez vez mais penetrados do sentido da missa, tereis feito excelente
– VII –
A Missa não é somente a Comunhão [4]
O reinado do Coração de Jesus supõe a claríssima noção da eucaristia e da missa. Para que venha o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo, devemos saber o que é a missa. Existe um avanço: primeiro, usamos o missal, contudo ainda não é o bastante. Vejam bem: comecei por vos falar do santo sacrifício: missa e comunhão, e não apenas o sacramento; sacrifício e sacramento, duas coisas que não são iguais, mas se completam.
A missa é a fonte e, de tal fonte, emanam três grandes torrentes:
1º a comunhão;
2º o tabernáculo com a presença real;
3º o ostensório.
Não há torrente, se não há fonte.
Mais das vezes temos a missa como a chave que vai abrir o tabernáculo. A comunhão antes da missa [5] é uma falta teológica. Vai-se à igreja para comungar e não pela missa – erro. A eucaristia é a comunhão, claro, mas a missa não é apenas a ocasião de comungar. Antes da comunhão, há o drama do Calvário, que se desenrola no altar; há a oferenda, a consagração. É o pano de fundo do sacrifício, que não é apreciado. Não existe missa sem comunhão, nem que seja apenas a do padre; mas tampouco há comunhão sem missa: são duas coisas que se completam [6].
Que é a missa?
Antes de ir ao Pai, Nosso Sehor disse: Consummatum est. É a omunhão que consome, termina, coroa o sacrifício. A missa termina na comunhão – o que se segue é um pequeno acréscimo da Igreja. Quando comungais antes da missa, começais pelo final, o que é contradição. A comunhão é que é o perfeccionamento e coroação do sacrifício. Sempre pode haver exceções, mas sempre exceções.
A missa cantada junto aos anjos é o que se chama de grande prece. Conheço um jovem advogado, bom católico, que todas as manhãs, às seis e meia, comunga. Mal suspeita o que seja a missa. Comunga, depois se esconde atrás do pilar para que a missa não o distraia de sua pequena prece, pois a grande prece, repito, é a missa. Cantam os anjos, mas não quero acompanhá-los… já tenho meu flautim!… É ridículo!
Que é o sacrifício da missa? É o gesto do Cristo Deus que se entrega a seu Pai, ao Calvário e ao altar: “Pai, eis me aqui para a glória vossa; Pai, Pai, aceitai-me… eis aqui.”
Que é a comunhão? É o Cristo a nos convidar: “Meus filhinhos, meus filhinhos, está posto o banquete; agora, consumi-me e deixai-vos consumir; vinde, vinde, experimentai.” É o querido pai, o bom Deus, a nos chamar. Eis o sacramento.
Antes de nós, o Pai. O bom Deus é o primeiro: eis o sacrifício, a missa. Depois, nós, e eis a comunhão. Tudo isso para que capteis a diferença.
A missa é o Cristo da Sexta-Feira Santa, é o Deus que louva e adora conosco.
O Homem-Deus é o que expia conosco e por nós: “Pai, contemplai-me as chagas, o sangue; rogo-vos por eles, pago por eles.”
O Cristo-Deus é o que peticiona: “Pai, meu Pai, meu Deus, meus filhinhos não sabem o que dizem, não sabem dizer obrigado; mas eu vos digo: daí-lhes tudo que lhes é necessário, luz, força, graças, virtudes; são uns pobres maltrapilhos, cumulai-os.”
É tudo isto o drama do Calvário, e tudo antes da comunhão, da comunhão que perfecciona o sacrifício: adoração perfeita do Cristo covosco, expiação perfeita do Cristo covosco, ação de graças perfeita do Cristo convosco, pertição perfeita do Cristo convosco.
A Continuação do Calvário
Não se pode falar do trato divino com palavras humanas, mas com nomes perfeitos, dentro do possível. Diz-se que a missa é a renovação do sacrifício da cruz; não lhe é um acréscimo, é a mesma coisa. Substituamos renovação por prolongamento. Logo, a missa é o prolongamento do sacrifício do Calvário ao longo dos séculos – é a missa do Calvário que se prolonga, desde o Calvário até hoje de manhã.
Suponhamos que temos recebido uma benção radiodifundida do papa. Pio XII está no Vaticano, seus dois secretários estão ao seu lado. Cá estamos nós na capela. Anuncia-se: “O papa vai abençoar-nos”. De joelhos, bem entendido: “Abençôo o pe. Matéo e os que se encontram no retiro etc.” Escutamos, dizia eu, como escutavam os dois secretários a seu lado; era o prolongamento de suas palavras por todo o mundo, mas por acaso era uma renovação? A missa é a radio oficial da Igreja: só existe uma, que se prolonga ao longo dos séculos e que nos mostra o que João e Madalena testemunharam aos pés do Calvário.
Uma missa de vinte séculos!… Podem ser a radio o papa, o bispo ou o padre. Se tivesseis fé! Se a tivesseis, veríeis ao Cristo. A missa é o Calvário, mas com uma variante: no Calvário, a vítima é dolorosa; no altar, a vítima é gloriosa pois, neste momento, suas pisaduras são de glória. O altar católico é o Tabor, mas coberto de uma nuvem vermelha de sangue; o altar católico também é o Calvário, Calvário glorificado dos esplendores do Tabor. Em linguagem simbólica e mística, dizem os poetas que a missa é o Natal – é mais ou menos assim: nasce a Criança um pouco menor que em Belém; Maria lhe oferece aos homens. Glória… Para outros, a missa é a Quinta-Feira Santa. Eis ali o Cordeiro… Vinde, vinde, vamos comer a Páscoa. Pois bem! São tudo consolações para o coração. Amanhã, tereis uma missa melhor que a de hoje.
Por que dizer: Se eu estivesse junto com Madalena e São João?… Vós estais com eles todas as manhãs. Não há dois Calvários, nem dois sacrifícios.
A Missa e os Milagres
Somos sequiosos por milagres, como crianças por chocolate; não obstante, estamos bem próximos ao milagre dos milagres. Que são todos os milagres, se comparados à missa? Perde-se a missa por causa de relíquias! O grande milagre, maior que as relíquias, é a missa.
Estava a preparar um retiro em meu quarto. Entra um padre: “O bispo me enviou com um tesouro para mostrar-vos”. Era um cibório relicário, contendo uma hóstia inteira, intacta com sangue. Mandaram analisar o sangue: “perfeito sangue humano”, disse o famacêutico. Se fora católico, teria de acrescentar: “perfeito sangue divino”. Que aconteceu? O bispo enviou-o para perto de seu amigo doente; consagrau por ele, mas do final da missa, morreu o doente, esquecendo de comungar daquela hóstia. Permaneceu um mês no cibório relicário. Quando o abriu, encontrou-o ensangüentado, e a hóstia em perfeita brancura. Grande milagre? Não, pequeno, bem pequeno. Prestem atenção!
Existe uma hierarquia de valores… Sejam mais religiosas que mulheres… Só a missa é um milagre de primeira ordem, de primeira classe. É o único milagre. Nem a ressureção de Lázaro, nem outros milagres que se lhe comparem. São milagres de segunda classe as conversões: a conversão de São Paulo, a de Santo Agostinho. Os demais milagres são de terceira classe: este que acabei de referir é algo belo, mas é um pequeno milagre. Tais milagres não são nada, se comparados ao da missa. Apressamo-nos a ver os pequenos milagres, mas não nos ocupamos do único que há: a missa. É como se eu dissesse: “A santa vai falar-vos”, e vós respondesseis: “Estou ocupada em vigiar a criança que está brincando perto de mim”. Ou ainda, que preferísseis contemplar uma folha ou flor em vez do sol. Ausentam-se em umas dez ou vinte missas para visitar Tereza Neumann [7]… que ausência de doutrina! São verdadeiros todos os fatos ocorridos em sua vida, mas a Igreja não se pronunciou. Os milagres de Paray-le-Monial e de Lourdes são pequenos milagres, se comparados aos milagres contidos naquele do Calvário: eis aí a pura doutrina. Há religiosas que preferem a pequena música das devoções às preces da missa… seu acordeãozinho ao órgão. Não apreciam a missa, a única devoção verdadeira.
A missa tem de provocar um incêndio que deve queimar até a morte.
Na missa, existem três celebrantes, o Cristo-Pontífice, o Cristo-Padre, e vós. Sempre somos em três [8].
Por que se necessita de um acólito na missa? Não é para entregar as galhetas ou responder as preces, mas para representar o terceiro celebrante, que sois vós ou a comunidade. Por que das cruzes traçadas sobre o cálice? Per ipsum et cum ipsum. Nele, meu Deus, meu Juiz; por ele, meu Deus e Salvador; com ele, meu Deus e meu Rei, meu bem-amado Esposo. Quem canta assim? A Igreja e eu, junto com ele, para a glória da Trindade. Esta é a razão de ser da encarnação, da redenção, dos sacramentos. Oh! Como queria que vós lêsseis, estudásseis,, meditásseis o cânon da missa! O cânon é um mosaico de preces antigas. O que vem antes e depois do cânon é a moldura.
Vivei a missa! Quando tiverdes dois ou três minutos, dizei a missa que chamo a de “São João”. Compõe-se ela de três preces principais que resumem a missa: oferenda, consagração, comunhão. Copiai do missal a missa da Trindade, ou do Santíssimo Sacramento, ou da Santa Virgem, segundo vossa devoção; levai-a convosco e, nos momentos livres, “celebrai a missa”, em união com as missas que àquele momento se celebram, pois que, tanto ao meio-dia quanto à meia-noite, estamos sempre entre dois altares. Deste modo aprende-se a viver a missa o dia inteiro.
Leio a missa o dia todo: meu anjo da guarda é o acólito da missa, quero morrer celebrando a missa.
A missa é a única homenagem, o único louvor. Atentem bem para o que chamo de “vício” da missa. Os santos devem se aborrecer quando se abandona a missa para lhes orar; chega a ser ridículo como nos falta doutrina! Devoção aos santos, sim; mas não em lugar da missa. Recitem vinte rosários antes, e cinqüenta depois, mas não durante a missa.
Parece que se esqueram um pouco da festa da Santíssima Trindade; é comum não solenizá-la tanto quanto a de São José ou outros; não há paramentos especiais, nem música. Mas a Igreja não se esqueceu: a festa da Santíssima Trindade é a missa. E o único chantre é Jesus. Nem a Santa Virgem, nem os anjos, nem os santos podem entoá-la dignamente. É o coração do rei que canta ao altar. Glória, louva o céu; Glória, entoa o purgatório; Glória, canta a Igreja – todas festas da Santíssima Trindade. Que mais belo que isto?… Nada, nada e nada [9].
Não há criatura que possa dignamente entoar à Trindade, nem Maria. Só, o Pontífice Supremo entoa dignamente o hino de glória à Trindade. Por meio dele, tornamo-nos chantres maravilhosos, dignos da Trindade. Começemos, já aqui embaixo, a cantar: “Gloria! Hosanna!”, porque será curta a eternidade.
Por ele, com ele e nele, toda a glória, honra e louvor.
03.04.08
Caricatura de uma confissão
Caros leitores, mil perdões pelo tempo em que tenho demorado para postar algo.
Porém a correira do dia-a-dia é tanta que as vezes deveria ter umas 30 horas no dia.
Bom achei esse desenho interessante e que faz agente pensar o quanto em relação as mudanças que tivemos nos últimos 40 anos.
In Corde Jesu et Mariae semper,
Santa Maria, ora pro nobis pecadoribus
Aline Souza
Vignetta che descrive perfettamente le condizioni dei fedeli (di tutti i fedeli) dopo quarant’anni di post-concilio.
Caricatura que descreve perfeitamente as condições dos fiéis (de todos os féis) depois de quarenta anos de pós Concílio
Primeiro quadro:
Penitente: ” Absolva-me , Padre, porque pequei… Cometi adultério com todas as mulheres de meu escritório…”
Confessor: “Sim, meu filho…”
Segundo quadro:
Penitente: “… matei uma meia dúzia de indivíduos e roubei as suas carteiras…
Confessor: “Que mais, meu filho…”
Terceiro quadro:
Penitente: “…roubei milhões e os gastei, jogando em Cassinos…”
Confessor: ” Há alguma coisa mais, filhinho…”
Quarto quadro:
Penitente: “… huum… ajoelhei-me durante a Missa”
Confessor: “O que !? Entendi direito o que você disse? Você vai direto para o inferno por isso!!
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Fonte retirada do site da Associação Cultural Montfort
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=cronicas&artigo=caricatura_confissao&lang=bra
Online, 04/03/2008 às 16:26h
02.25.08
Biografia São Tomás – 1º capítulo: Dois Frades (2ª parte)
Essa analogia é em verdade, o melhor prefácio da filosofia de São Tomás.
O lado místico ou espiritual do catolicismo desempenhara importante papel nos primeiros séculos católicos através do gênio de Santo Agostinho, através do transcendentalismo[1] da suposta obra de São Dionísio, através da influência oriental do segundo império e da influência algo asiática do reino quase pontifical de Bizâncio, de uma certa forma, todos esses eram platônicos, sendo que obtinham um certo tipo de orgulho na posse das verdades interiores intangíveis e intraduzíveis, como se nenhuma coisa da sabedoria tivesse raiz em alguma parte do mundo real.
A primeira coisa que São Tomás fez, foi dizer a esses, algo que em essência é o seguinte:
“Longe de um pobre frade vir negar que vós trazeis na cabeça esses deslumbrantes diamantes, todos talhados na forma cristalográficas mas perfeitas, brilhantes de luz puramente celestial, e os tendes ai quase antes de começar a pensar, para não dizer antes de começar a ver, ouvir e sentir. Mas eu não tenho vergonha de dizer que a minha razão é alimentada pelos meus sentidos; que devo muito do que eu penso ao que eu vejo, cheiro, provo e palpo, e que, para olhar as coisas de um ângulo racional, me sinto obrigado a considerar real essa realidade.
Em resumo e com toda a humildade não creio que Deus quisesse que o homem exercesse unicamente essa espécie peculiar e abstrata do intelecto que tendes a fortuna de possuir, mas creio que há um campo intermédio de fatos que são apresentados pelos sentidos como matéria para a razão, e que nesse campo esta tem o direito de governar, como representante de Deus dentro do homem. É verdade que tudo isso é inferior aos anjos, mas é muito superior aos animais e a todos os objetos materiais que o homem encontra à sua volta.
Realmente, o homem pode ser também um objeto, e até um objeto deplorável. Mas o que o homem fez, o homem pode fazê-lo, e , se um velho pagão antiquado, chamado Aristóteles, pode ajudar-me a fazê-lo, agradecer-lho-ei com toda a humildade.”
Assim deu-se início ao que é conhecido geralmente pelo apelo de São Tomás a Aristóteles, o que poderia chamar-se apelo à razão e à autoridade dos sentidos.
Como podemos ver existe outras idéias mais curiosas e complexas na filosofia de São Tomás, a par de uma idéia primária sobre o núcleo de senso comum alimentado pelos cinco sentidos. E o importante é notar que essa doutrina não era só tomista mas uma doutrina verdadeiramente e eminentemente cristã.
Não será possível ocultar a ninguém que São Tomás de Aquino foi um dos grandes libertadores do intelecto humano e que de fato é de extraordinária importância na história dizer com verdade, que foi um grande homem que reconciliou a Igreja com a razão.
Em uma palavra, São Tomás estava tornando a Cristandade mais cristã, tornando-a mais Aristotélica.
Isso não é um paradoxo[2], mas um truísmo demasiado eminente, que só pode não ser compreendido pelos que talvez saibam o significado aristotélico mais esqueceram simplesmente do que significa cristão, e para lembrar, a palavra “cristão” significa crente ou aquele que acredita em Deus.
Em resumo essas duas figuras da história fizeram muito pela Igreja, cada um na sua forma e no seu modo de viver, mas sempre pelo único motivo, defender a Igreja daqueles que à tentavam destruir.
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[1] – Transcendentalismo é o nome do grupo de novas idéias na literatura, religião, cultura e filosofia que prega a existência de um estado espiritual ideal que “transcende” do físico e o empírico somente perceptivo por meio de uma sábia consciência intuitiva. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Transcendentalismo)
[2] – Um paradoxo é uma declaração aparentemente verdadeira que leva a uma contradição lógica, ou a uma situação que contradiz a intuição comum. Em termos simples, um paradoxo é “o oposto do que alguém pensa ser a verdade”. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Paradoxo)
02.20.08
O que é verdade?
Caros leitores, bom dia!
Estava eu na faculdade ontem e deparei com uma aula bem curiosa.
A matéria se tratava de Teoria da Administração com o tema “Teoria da Correspondência e da Coerência”.
O criador desse tema foi o fiolósofo “Kant” que tentando reformular a teoria da verdade de São Tomás de Aquino acabou por dizer isso:
Teoria da Correspondência:
"Usada para julgar a veracidade da afimação, quando utilizamos os cinco sentidos para julgar se algo é verdadeiro"
É quando usamos os nossos cinco sentidos para definir algo, ou seja, para poder conhecer, definir ou tomar uma decisão precisamos primeiramente ouvir, ver, tocar, etc. Diz que a verdade é sensitiva, porém cada um tem a sua experiência da verdade. (disse com as minhas palavras)
Teoria da Coerência:
"É um teste de lógica pura, sendo verdade sem qualquer evidência sensória externa
Diz que é uma teoria lógica, que não precisamos dos sentidos, uma decisão mais exata da verdade como se fosse até matemático, como 1 + 1 = 2, ou seja, somente a razão e a intuição interior das pessoas bastam para tomar a decisão do que é verdade. (também com palavras minhas).
Bom dai vem a minha questão, São Tomás na Suma Teológica, dá a definição da Verdade:
"Verdade é a correspondência entre a idéia que se tem de um ser e o próprio ser conhecido"
Ou seja, a verdade é objetiva, não depende do que cada um acha e sim do objeto. Aristóteles disse sobre a teoria da verdade também que “A verdade é o que é e não é o que não é, e se fosse não é o que é e é o que não é seria algo errado”, porém a verdade consiste na idéia que temos de algo para esse algo.
Ex: Olhando para uma mesa eu sei que ela em sua essência é um plano horizontal sustentável, pois isso sei que é uma mesa, apesar de se apresentar as vezes de várias formas diferentes (redonda, quadrada, etc.), mas nunca vai deixar de ser uma mesa e se alguém disse ao contrário estaria dizendo algo mentiroso.
Ou até mesmo assim, se todo o mundo dissesse que o sol é frio, ele continuaria sendo quente.
Bom coloquei essas definições e exemplos sobre a verdade para refutar o que meu professor Marcelo disse e deixar bem claro que a verdade não é nem um pouco relativa, e sim algo objetivo.
Para dizer que somente por alguém “achar” que algo é verdadeiro aquilo se torne verdade, que isso em muitas vezes pode ser considerado até como loucura, afinal eu posso “achar” que um gato é um cachorro, mas ele nunca vai sair latindo pelas ruas, porém esse meu achismo é mentiroso e não verdadeiro.
A verdade ela se apresente em duas entidades na sua essência e na sua forma, essência é o que ela é de fato, aquilo que nunca vai mudar, como Nosso Senhor disse “Eu sou aquilo que sou”, porém pode se apresentar de várias formas e jeitos, mas todos mostrando e deixando bem claro o que esse algo na verdade é.
Meu professor ontem acabou que na sua aula ensinou o relativismo, cada um pode achar o que bem entender e que a partir daí isso se torna verdade para nós, porém acredito eu, que com o que eu expliquei em cima, ou melhor, com que São Tomás, Aristóteles e Nosso Senhor ensinaram deu para deixar bem claro que na verdade as coisas não são o que eu quero que seja e sim são o que sempre tiveram que ser.
In corde Jesu et Mariae semper,
Aline Souza
02.18.08
Biografia São Tomás – 1º capítulo: Dois Frades
Caros Leitores, bom dia a todos!
Segue abaixo o primeiro resumo sobre o livro que conta a vida de São Tomás de Aquino, logo estarei colocando o resto do primeiro capítulo do livro.
Coloquei os mesmos divididos em partes, pois como biografia acaba por si mesma ficando muito longa, achei melhor colocar em partes curtas para facilitar a leitura das mesmas.
Tenham uma ótima leitura.Até mais.
Aline Souza
Resumo sobre o livro de G. K. Chesterton – Biografia de São Tomás de Aquino
1º Capítulo: Dois Frades (1ª parte)
Chesterton um certo tempo escreveu um livrinho sobre a vida de São Francisco de Assis e pouco tempo depois prometeu fazer o mesmo sobre a vida de São Tomás de Aquino.
Essa promessa no seu começo era franciscana, como dizia ele, estava longe de ser tomística, na sua lógica.
Dizia que podia fazer um esboço de São Francisco e de São Tomás só se podia traçar um plano, como se fosse uma cidade labiríntica, apesar, dizia ele, de São Tomás caber num livro muito menor como num muito maior.


São Francisco e São Tomás tinham um contraste tão real que se vissemos os dois descendo uma colina chegaria até ser cômico, era como se vissemos as silhuetas de Dom Quixote e Sancho Pança, comparava ele.


São Francisco era magro, pequeno e vivaz, vibrante como a corda de um arco e nos seus movimentos rápido como uma flecha disparada.
São Tomás era gordo e vagaroso, pesado e grande como um touro, era tranquilo, pouco sociável e muito tímido.
São Francisco era tão fogoso e irriquieto que os eclesiásticos diante dos quais aparecia de vez em quando o julgavam doido e São Tomás mostrava-se tão tardio que os mestres das escolas que frequentavam o suponahm estúpido.
Na verdade São Tomás pertencia a classe dos estudantes não raros, que preferem ser considerados estúpidos do que verem as suas idéias invadidas por estúpidos mais animados.
O contraste entre os dois não fica apenas na aparência, e acaba por se demonstrar em quase todos os aspéctos.
São Francisco amando tanto a poesia, acabava por desconfiar dos livros e São Tomás além de amar os livros, vivia deles, gostava tanto de seus livros que uma vez perguntaram a ele o que mais ele agradeceria a Deus, e ele respondeu: “Ter compreendido todas as páginas que li.”
São Francisco colocava grande vivacidade nas suas poesias, no entanto, nos seus documentos era indeciso. E São Tomás devotou-se em toda a sua vida a documentar os sistemas da literatura pagã e cristã, e de vez em quando, escrevia alguma poema.
Apesar destes contrastes tão distintos um do outro, os dois, São Francisco e São Tomás lutavam sempre pelo mesmo motivo, defender a fé católica daqueles que à tentavam destruir. O Santo é remédio por ser antídoto.
Realmente é essa a razão de porque os santo é tantas vezes mártir. Em geral sucede estabelecer a saúde do mundo exagerando aquilo que o mundo despreza. Um elemento qualquer que, não é, de modo algum sempre o mesmo em todas as épocas.
Cada geração procura o seu santo por instinto, não o que ela quer mas o que ela precisa.Daqui resulta o paradoxo da história, de cada geração ser convertida pelo santo que mais está em desacordo com ela.
São Francisco despertou uma atração curiosa entre os vitorianos e os ingleses do século XIX, até os liberais ingleses começaram a descobrir os mistérios da idade média, havia algo nas histórias de São Francisco que deixava para trás todas aquelas qualidades inglesas para chegar a outras mais ocultas e humanas.
São Francisco foi o único católico medieval que se popularizou na inglaterra pelos seus muitos próprios. Assim, pois, no século XIX se prendeu ao romance franciscano, precisamente porque desprezara o romance, já no século XX está prendendo a teologia racional tomística, porque tem desprezado a razão.
Na verdade essas comparações poderiam ser bem diferentes sendo São Francisco com São Domingos e São Tomás com São Boaventura, ele diz isso pois os mesmos estavam presentes na mesma época.
Mas afinal, a comparação com São Francisco e com São Tomás é como se fosse um atalho para chegar ao âmago da história, que seria sobre a vida desse santo.
Apesar do contraste entre os dois, ambos executavam a mesma obra, um no gabinete e outro na rua. Não traziam nada de novo ao cristianismo, no sentido de pagão ou herético, pelo contrário estavam levando o cristianismo à cristandade.
São Francisco servia-lhe da natureza assim cmo São Tomás se servia de Aristóteles. O que em verdade estavam fazendo, especialmente São Tomás, constituiu o assunto principal deste livro. Mas é conveniente poder compará-lo desde já com um santo mais popular.
Talvez possa parecer paradoxal saber que esses dois nos salvaram da mais pura espiritualidade.
São Francisco com o seu amor aos animais nos salvou de sermos budistas e São Tomás com o seu amor a filosofia grega nos salvou de sermos platônicos, ambos afirmam a encarnação tornando a trazer Deus á terra.
02.08.08
O grande segredo – São Luis Maria Grinon de Montfort
Boa tarde a todos,
segue um texto de São Luis Maria Grinon de Monfort
O mesmo fala sobre a escravidão a Maria e como se fazer para fazer a Consagração a Nossa Senhora. É muito bonito de ler, inclusive as orações que são belíssimas.
Esse texto foi retirado do site da Permanência, na sua livraria digital
Tenham uma ótima leitura.
até mais
Aline Souza
O GRANDE SEGREDO
PARA SE CHEGAR A SANTIDADE
INTRODUÇÃO
O Segredo e suas condições
Eis aqui, ó alma predestinada, um segredo que o Altíssimo me confiou e que não pude encontrar em nenhum livro, antigo ou novo. Pelo Espírito Santo eu o confio a ti, contanto:
— que o não comuniques senão às pessoas que o mereçam — por suas orações, esmolas, mortificações, pelas perseguições sofridas, pelo seu zelo na salvação das almas e pelo seu desprendimento;
— que te sirvas dele para te tornares santa e celeste, por isso que só será grande este segredo para os que dele se utilizarem. Toma cuidado em não ficares de braços cruzados, sem trabalho; destarte meu segredo te serviria de veneno e seria a tua condenação;
— que todos os dias de tua vida agradeças a Deus o privilégio que te concedeu ensinando-te um segredo que não mereces conhecer. À medida que dele te servires nas ações ordinárias da vida. Avaliarás então o preço e a excelência que, a princípio, por causa da multidão e da gravidade dos teus pecados, dos apegos secretos à própria pessoa, só muito imperfeitamente conhecias.
A preparação para recebê-lo
[2] Antes de prosseguir, desejoso desse desejo diligente e natural de conhecer a verdade, reza devotamente, de joelhos, a Ave Maria, a Maris Stella e o Veni, Creator, pedindo a Deus a graça de compreender e saborear este mistério divino.
Devido ao pouco tempo que temos, eu para escrever e tu para ler, dir-te-ei tudo resumidamente.
PRIMEIRA PARTE
PAPEL DE MARIA EM NOSSA SANTIFICAÇÃO
A NECESSIDADE DE NOS SANTIFICARMOS POR MARIA
É da vontade de Deus a nossa santificação; é necessária, portanto
Imagem viva de Deus, resgatada pelo Sangue precioso de Jesus Cristo, a vontade divina em relação a ti, ó alma, é que te tornes santa como Deus nesta vida e gloriosa como Ele na outra.Tua vocação, sem dúvida alguma, é a aquisição da própria santidade de Deus; para este objetivo é que devem tender todos os teus pensamentos todas as tuas palavras, ações e sofrimentos, todos os movimentos de tua vida; do contrário resistirás a Deus, deixando de fazer aquilo para que te criou e conserva atualmente.Que obra admirável! A imundície em pureza! A criatura no Criador! O homem em Deus! Obra admirável! Eu o repito; mas de si mesma difícil e absolutamente impossível à natureza; só Deus, por uma graça, e graça abundante e extraordinária, o poderá conseguir; mesmo porque nem a criação de todo o Universo se lhe pode comparar.
Nossa santificação exige a prática da virtude. Como farás, ó alma? Quais os meios que escolherás para subir aonde Deus te chama? Os meios de salvação e de santificação, conhecidos de todos, indicados no Evangelho explicados pelos mestres da vida espiritual, e praticados pelos santos, são necessários aos que se querem salvar e atingir a perfeição: a humildade de coração, a oração contínua, o abandono à Divina Providência, a conformidade com a vontade de Deus.
Para a prática da virtude necessitamos da graça de Deus.
Para que bem nos utilizemos todos esses meios de salvação e de santificação, mister se nos faz o socorro e a graça de Deus, graça que, em maior ou menos grau, é a todos concedida; ninguém o duvide. Em maior ou menor grau, digo eu, porque Deus, ainda que infinitamente bom, não concede sua graça de modo igual a todos, muito embora de a todos a graça suficiente.A alma fiel a uma grande graça, pratica uma grande ação; com uma graça menor, pratica uma ação menor. O preço e a excelência da graça, dada por Deus e correspondida pela alma, fazem o preço e a excelência de nossas ações. São incontestáveis esses princípios.
Para achar a graça de Deus é necessário encontrar Maria.
Tudo enfim se reduz a encontrar-se um meio fácil de obter de Deus a graça necessária para a santificação; é o que te quero ensinar. Asseguro-te, porém que para achar a graça de Deus é necessário encontrar Maria.
PORQUE MARIA NOS É NECESSÁRIA
Porque somente Maria encontrou graça diante de Deus.
1º) Somente Maria achou graça diante de Deus, tanto para si como para cada homem em particular. Os Patriarcas e os Profetas, todos os Santos da antiga lei não puderam encontrar essa graça.Porque somente Maria é Mãe da graça.
2º) Por isso que Maria foi quem deu o ser a vida ao Autor de toda graça, é que a chamamos Mãe da graça, Mater gratiae.
Porque somente Maria possui, depois de Jesus, a plenitude da graça.
3º) Deus pai, de quem procedem, como de sua fonte essencial, todo dom perfeito e toda graça, deu-lhe todas as suas graças; de modo que a vontade de Deus, como diz S.Bernardo, lhe é dada nele e com ele.
Porque somente Maria é a tesoureira de todas as graças de Jesus.
4º) Deus a escolheu para tesoureira, ecônoma e dispensadora de todas as suas graças; de sorte que todas as suas graças e todos os seus dons passam por suas mãos; e segundo o poder que Ela recebeu, como diz São Bernardino, Ela distribui a quem quer, como quer, quando quer e quanto quer, as graças do Pai Eterno, as virtudes de Jesus Cristo e os dons do Espírito Santo.
Porque para ter Deus por Pai, é necessário ter Maria por Mãe.
5º) Assim como, na ordem natural, uma criança tem que ter um pai e uma mãe, da mesma maneira na ordem da graça é preciso que um verdadeiro filho da Igreja tenha a Deus por pai e Maria por mãe; e si se gloria de ter a Deus por pai, não tendo por Maria a ternura de um verdadeiro filho, é um enganador que só tem por pai ao demônio.
Porque os membros de Jesus devem ser formados pela Mãe de Jesus.
6º) Desde que Maria formou o Chefe dos predestinados, que é Jesus Cristo, a Ela também compete formar os membros desse Chefe, que são os verdadeiros Cristãos; pois uma mãe não forma a cabeça sem os membros, nem os membros sem a cabeça. Quem quiser, pois, ser membro de Jesus Cristo, cheio de graça e de verdade, deve ser formado em Maria por meio da graça de Jesus Cristo, que nela reside em toda a plenitude, para ser plenamente comunicada aos verdadeiros membros de Jesus Cristo e aos seus verdadeiros filhos.
Porque é por Maria que o Espírito Santo produz os predestinados.
7º) Havendo o Espírito Santo desposado Maria, e tendo produzido nela, por ela e dela a Jesus Cristo, essa obra prima que é o Verbo encarnado; e como nunca a repudiou, continua a produzir todos os dias nela e por Ela de uma maneira misteriosa, porém verdadeira, os predestinados.
Porque é Maria que está encarregada de alimentar as almas, e de fazê-las crescer em Deus.
8º) Maria recebeu de Deus um domínio particular sobre as almas para nutri-las e as fazer crescer em Deus. Santo Agostinho diz mesmo que neste mundo os predestinados são todos encerrados no seio de Maria, e que não nascem senão quando essa boa Mãe os gera para a vida eterna. Por conseguinte, como a criança tira todo o alimento de sua mãe, que o dá proporcionado à sua fraqueza, da mesma maneira os predestinados tiram todo o alimento espiritual e toda a sua força de Maria.
Porque Maria deve habitar nos predestinados.
9º) Foi a Maria que Deus Pai disse: In Jacob inhabita: Minha filha, habita em Jacó. Foi a Maria que Deus Filho disse: In Israel Haereditare: Minha querida Mãe, tende vossa herança em Israel, quer dizer, nos predestinados.Enfim, foi a Maria que o Espírito Santo disse: In electis meis mitte radices: Lançai, minha Esposa fiel, raízes em meus eleitos. Todo aquele, pois, que é eleito e predestinado tem a Ssma. Virgem habitando em si, quer dizer, em sua alma, e aí a deixa lançar raízes de profunda humildade, de ardente caridade e de todas as virtudes.
Porque Maria é o “molde vivo” de Deus e dos Santos.
Maria é chamada por Sto. Agostinho, e é, com efeito, o molde vivo de Deus, forma Dei, o que quer dizer que foi nela somente que Deus feito homem foi formado ao natural, sem que lhe falte nenhum traço da Divindade; e é também somente nela que o homem pode ser formado em Deus ao natural, tanto quanto a natureza humana é disso capaz, pela graça de Jesus Cristo. Um escultor pode fazer uma figura ou um retrato ao natural de duas maneiras:
1º) servindo-se de seu engenho, de sua fora, de sua ciência e dos instrumentos adequados para fazer essa figura de uma matéria dura e informe; 2º) pode lançá-lo numa forma. A primeira é demorada e difícil, e sujeita a muitos acidentes: muitas vezes basta um golpe de cinzel ou de martelo mal dado para estragar toda a obra. A segunda é rápida, fácil e suave, quase sem trabalho e sem esforço, contanto que o molde seja perfeito e reproduza o original, e que a matéria de que se serve, fácil de se manipular, não resista de maneira alguma à sua mão.
Molde perfeito em si mesmo, e que nos torna perfeitos em Jesus Cristo.
Maria é o grande molde de Deus, feito pelo Espírito Santo, para formar ao natural um Homem-Deus pela união hipotética, e para formar um homem Deus pela graça. Não falta a este molde nenhum traço da divindade; quem quer que nele se deixe manejar, nele recebe todos os traços de Jesus Cristo (1), verdadeiro Deus, duma maneira suave, proporcionada à fraqueza humana, sem muito trabalho e agonia; duma maneira segura, sem temor de ilusão, pois o demônio nunca teve e jamais terá acesso até Maria, santa e imaculada, sem sombra da menor mancha de pecado.
De uma maneira pura e divina.
Ó! Alma querida, que diferença entre uma alma formada em Jesus Cristo pelos caminhos comuns dos que, como os escultores, se fiam na própria habilidade e se apóiam em seu engenho, e uma alma bem manejável, bem desligada, bem fundida, e a qual, sem nenhum apoio em si mesma, se lança em Maria, e aí se deixa manejar pela operação do Espírito Santo! Quantas manchas, quantos defeitos, quantas trevas, quantas ilusões, quanto da natureza, quanto de humano na primeira alma; e como a outra é pura, divinae semelhante a Jesus Cristo!
Porque Maria é o Paraíso e o mundo de Deus.
Absolutamente não há nem haverá jamais criatura na qual Deus seja maior, fora de si mesmo, do que na divina Maria, sem excetuar nem mesmo os Bem-aventurados, os Querubins, os mais altos Serafins, no próprio Paraíso.Maria é o Paraíso de Deus e o seu mundo inefável, no qual o Filho de Deus entrou para nele operar maravilhas, para guardá-lo e nele se comprazer. Ele fez este mundo para o homem peregrino; fez um mundo para o homem bemaventurado, o Paraíso; fez, porém, um outro para si, a que deu o nome de Maria; mundo desconhecido de quase todos os mortais cá na terra, e incompreensível a todos os Anjos e Bem-aventurados, lá no céu, [e] que admirados de ver a Deus tão elevado e tão elevado e tão recuado de todos eles, tão separado e tão oculto em seu mundo, que é a divina Maria, exclamam dia e noite: Santo, Santo, Santo!
Para no qual o Espírito Santo faz entrar nossa alma para aí encontrar a Deus.
Feliz, mil vezes feliz a alma, aqui em baixo, à qual o Espírito Santo revela o segredo de Maria, para conhecê-lo; e à qual ele abre esse jardim fechado, para aí penetrar; esta fonte selada, para dela tirar e beber a grandes sorvos a água viva da graça! Esta alma achará somente Deus, sem criatura, nesta admirável criatura; porém Deus ao mesmo tempo infinitamente santo e elevado, infinitamente condescendente e proporcionado à fraqueza dela. Desde que Deus está em toda parte, pode-se achar em toda parte, mesmo no inferno; porém não há lugar algum onde a criatura o possa achar mais próximo de si e mais proporcionado à sua fraqueza do que em Maria, pois que foi para isso que ele aí desceu. Em todas as outras partes ele é o Pão dos fortes e dos Anjos; mas em Maria, ele é o Pão das crianças.
Porque Maria, longe de ser um obstáculo, lança as almas em Deus e uni-as a Ele.
Que ninguém pense, com alguns falsos iluminados, que Maria, como criatura, seja um empecilho à união com o Criador; não é mais Maria que vive, é somente Jesus Cristo, é somente Deus que vive nela. Sua transformação em Deus ultrapassa mais ainda a de São Paulo e dos outros Santos, mais do que o Céu ultrapassa a terra em elevação. Maria não é feita senão para Deus, e basta que Ela prenda uma alma a si própria, que, ao contrário logo a lança em Deus e a une a Ele com tanto maior perfeição quanto mais a alma se una a Ela: Maria é o eco de Deus, que não responde senão Deus, quando se lhe grita: Maria; que não glorifica senão a Deus, quando com Santa Isabel, a chamamos bem-aventurada.
CONCLUSÃO DESTA PRIMEIRA PARTE
Para tornar-se santo, é preciso, pois, encontrar Maria, a Medianeira das graças, e isto por uma “verdadeira devoção à Santa Virgem”.
A dificuldade está, portanto, em saber encontrar verdadeiramente a divina Maria para encontrar toda graça abundante: Deus, sendo senhor absoluto, pode comunicar por si mesmo o que ordinariamente não comunica senão por Maria, não se pode negar, sem temeridade, que não o faça algumas vezes: (1) no entanto, segundo a ordem que a divina sabedoria estabeleceu, ele não se comunica aos homens na ordem da graça senão por Maria, como diz São Tomás. É necessário, para subir e unir-se a ele usar o mesmo meio de que ele se serviu para descer a nós, para se fazer homem e nos comunicar suas graças: e esse meio é uma verdadeira devoção à Santíssima Virgem.
SEGUNDA PARTE
“A VERDADEIRA DEVOÇÃO” A SANTÍSSIMA VIRGEM ou A SANTA ESCRAVIDÃO DE AMOR
A – ESCOLHA DA VERDADEIRA OU PERFEITA DEVOÇÃO
Há diversas verdadeiras devoções a Maria.[24] Há, com efeito, diversas devoções verdadeiras à Ssma. Virgem: e não falo aqui das falsas.
1. A devoção sem prática especial
A primeira consiste em cumprir os deveres de cristão, evitando o pecado mortal, agindo mais por amor que por temor, invocando de quando em vez a Santa Virgem e honrando-a como Mãe de Deus, sem, no entanto, nenhuma devoção especial para com Ela.
2. A devoção incluindo práticas particulares.
A segunda consiste, em ter para com a Santa Virgem sentimentos mais perfeitos de estima, de amor, de confiança e de veneração. Leva a entrar em confrarias do santo Rosário, do Escapulário, a recitar o Terço e o santo Rosário, a honrar suas imagens e seus altares , em publicar seus louvores e alistar-se em suas congregações. E essa devoção, excluindo o pecado, é boa, santa e louvável; mas não é tão perfeita e tão capaz de desapegar as almas das criaturas e de as desprender de si própria para uni-las a Jesus Cristo.
3. A devoção perfeita: a da Santa Escravidão de amor.
A terceira devoção à santa Virgem, conhecida e praticada por muito poucas pessoas, é esta que te vou revelar, alma predestinada.
B – NATUREZA E EXTENSÃO DA VERDADEIRA DEVOÇÃO A MARIA, CHAMADA SANTA ESCRAVIDÃO DE AMOR.
Natureza desta devoção: Consagração a título de escravo de amor, e vida de união com Maria.
Consiste esta em dar-se inteiramente, na qualidade de escravo, a Maria e a Jesus por Ela; depois, em fazer todas as coisas com Maria, em Maria por Maria e para Maria. Explico estas palavras.
Extensão desse sacrifício: é um abandono total nas mãos de Maria.
É preciso escolher um dia assinalado para se dar, consagrar e sacrificar voluntariamente e por amor, sem constrangimento, inteiramente, sem nenhuma reserva, corpo e alma; os bens exteriores de fortuna, como a casa, a família, as rendas; e os bens interiores da alma: méritos, graças, virtudes e satisfações.É preciso notar que se sacrifica, por esta devoção, a Jesus por Maria tudo o que uma alma tem de mais caro e o de que nenhuma ordem religiosa exige o sacrifício, que é o direito que se tem de dispor de si mesmo e do valor de suas orações, esmolas, mortificações e satisfações; de sorte que tudo se deixa à inteira disposição da Ssma. Virgem, para que o aplique segundo sua vontade para a maior gloria de Deus, que só Ela conhece perfeitamente.
Maria torna-se Senhora do valor de nossas obras.
Deixa-se à sua inteira disposição todo o valor satisfatório e impetratório de todas as obras: assim, após a oblação que delas se fez, embora sem nenhum voto, não se é mais senhor do bem que se faz; mas a Ssma. Virgem pode aplicá-lo a uma alma do Purgatório, para aliviá-la ou livrá-la, ou a um pobre pecador para convertê-lo.
Põem-se, por esta devoção, os méritos próprios nas mãos da Santa Virgem; mas é para guardá-los, aumentá-los, embelezá-los, pois nós não nos podemos comunicar uns aos outros nem os méritos da graça santificante nem da glória. Damos-lhe, porém, todas as nossas orações e boas obras próprias, tanto satisfatórias como impetratórias, para que Ela as distribua e as aplique a quem e como lhe aprouver; e se depois de nos termos assim consagrado à santa Virgem desejarmos aliviar alguma alma do Purgatório, salvar algum pecador, sustentar algum de nossos amigos com nossas orações, nossas esmolas, nossas mortificações, nossos sacrifícios, será necessário pedir-lhe humildemente e conforma-se com o que Ela determinar, sem o sabermos; ficando bem persuadidos de que o valor das nossas ações, distribuído pela mesma mão de que Deus se serve para nos distribuir suas graças e seus dons, não pode deixar de ser aplicado para a sua maior glória.
Três espécies de escravidão a escravidão de amor é a mais perfeita consagração a Deus
Disse que esta devoção consiste em dar-se a Maria na qualidade de escravo. É preciso notar que há três espécies de escravidão.A primeira é a escravidão por natureza; os homens bons e os maus são escravos de Deus dessa maneira. A segunda é a escravidão por sujeição; os demônios e os réprobos são escravos de Deus dessa maneira.A terceira é a escravidão de amor, voluntária; é aquela pela qual nos devemos consagrar a Deus por Maria, a maneira MAIS PERFEITA pela qual uma criatura se pode dar ao seu Criador.
Diferença entre um simples servidor e um escravo.
Notai ainda que há bastante diferença entre um servidor e um escravo: — Um servidor quer salário pelos seus serviços; o escravo o tem absolutamente. O empregado tem liberdade para deixar quando quiser o seu patrão e só o serve por um certo tempo; o escravo não tem direito de deixar o seu senhor; é dele para sempre. O servidor não dá o seu amo direito de vida e morte sobre sua pessoa; o escravo dá-se inteiramente, de sorte que seu amo poderia até matá-lo sem que fosse inquietado pela justiça. È fácil ver, porém, que o escravo por sujeição está na mais estreita das dependências, a qual propriamente não convém senão em se tratando de um homem em relação ao seu Criador. É por isso que os Cristãos não tem tais escravos; só os tem assim os Turcos e os idólatras.
Felicidade das almas escravas de amor.
Feliz e mil vezes feliz é a alma generosa que se consagra a Jesus por Maria, na qualidade de escrava de amor, depois de sacudida pelo batismo a escravidão do demônio!
C – A EXCELÊNCIA DA SANTA ESCRAVIDÃO: PROVÉM DE FAZERMOS PASSAR TODA A NOSSA VIDA ESPIRITUAL POR MARIA, A MEDIANEIRA
Passar por Maria É imitar as três Pessoas divinas.
Muitas luzes me seriam necessárias para descrever perfeitamente a excelência desta prática. Direi somente, de passagem:
1º) Que dar-se assim a Jesus, pelas mãos de Maria, é imitar Deus Pai, o qual não nos deu seu Filho senão POR Maria, e que não nos comunica suas graças senão POR Maria; é imitar Deus Filho que não veio a nós senão POR Maria e que nos havendo dado exemplo para que fizéssemos como Ele fez, pediu-nos fossemos a Ele pelo mesmo meio PELO qual Ele veio a nós, que é Maria, é imitar o Espírito Santo, o qual não nos comunica suas graças e seus dons senão por Maria. Não é justo que a graça volte a seu autor, diz São Bernardo, pelo mesmo canal por que veio a nós?
É honrar a Jesus
2º) Ir a Jesus POR Maria, é verdadeiramente honrar a Jesus Cristo, pois é frisar que não somos dignos de nos aproximar de sua santidade infinita diretamente, por nós mesmos, devido aos nossos pecados, e que temos necessidade de Maria, sua santa Mãe, para ser nossa advogada e nossa MEDIANEIRA junto dele, que é o nosso MEDIADOR. É, ao mesmo tempo, nos aproximarmos dele como de nosso mediador e nosso irmão, e nos humilharmos diante dele como diante de nosso Deus e nosso juiz: em uma palavra, é praticar a humildade, na qual sempre se deleita o coração de Deus.
É o meio de purificar e embelezar nossas boas ações.
3º) Consagrar-se desse modo a Jesus POR Maria, é colocar nas mãos de Maria as nossas boas ações, as quais, embora pareçam boas, são freqüentemente manchadas e indignas do olhar e da aceitação de Deus, diante do qual nem as estrelas são puras Ah! Supliquemos a essa boa Mãe e Senhora, que, havendo recebido nosso pobre presente, o purifique, santifique, eleve e embeleze de tal maneira, que o torne digno de Deus. Todos os rendimentos de nossa alma são menores diante de Deus, o Pai de família, para ganhar sua amizade e sua graça, do que seria diante do rei a maçã bichada dum pobre camponês, para pagar seu campo.
Que faria esse pobre homem se fosse esperto e tivesse prestígio junto da rainha? Amiga do pobre campônio e respeitosa para com o rei, não tiraria dessa maçã o que estivesse bichado e estragado, e não a colocaria uma bandeja de ouro, rodeada de flores? e o rei poderia deixar de a receber até com alegria, das mãos da Rainha, que ama o camponês? Modicum quid offere desideras? Manibus Mariae tradere cura, si non vis sustinere repulsam. Se quereis oferecer alguma coisa a Deus, diz São Bernardo, colocai-[a] nas mãos de Maria, a menos que queirais ser repelido.
Pois sem Maria nossas ações valem muito pouco.
Bom Deus! Como é pouco tudo o que fazemos! Coloquemo-lo, porém, nas mãos de Maria, por meio desta devoção. Como nos teremos dado inteiramente a Ela, tanto quanto se pode, despojando-nos de tudo em sua honra, Ela nos será infinitamente mais liberal, Ela nos dará “por um ovo um boi”; Ela se comunicará toda a nós com seus méritos e suas virtudes; Ela colocará nossos presentes no prato de ouro de sua caridade; Ela nos revestirá, como Rebeca fez com Jacó, das belas vestimentas de seu Filho primogênito e único Jesus Cristo, quer dizer, com os méritos que ela tem à sua disposição: e assim, como criador e escravos seus, depois de nos termos despojado de tudo para honrá-la, teremos duplas vestes: Omnes domestici ejus vestiti sunt duplicibus: vestuários, ornamentos, perfumes, méritos e virtudes de Jesus e de Maria na alma de um escravo de Jesus e de Maria despojado de si mesmo e fiel no seu despojamento.
É exercer maravilhosamente a caridade para com o próximo.
4º) Dar-se, assim, à Ssma. Virgem, é exercer ao mais alto grau que se pode a caridade para com o próximo, pois fazer-se voluntariamente seu cativo é dar-lhe o que se tem de mais caro, a fim de que ela possa dispor de tudo à sua vontade em favor dos vivos e dos mortos.
É a maneira de conservar e de aumentar a graça de Deus em nossas almas.
5º) É por esta devoção que se colocam as graças, os méritos e virtudes em segurança, fazendo Maria a depositária e dizendo-lhe: “Tomai, minha querida senhora, eis o que, pela graça de vosso caro filho, eu fiz de bem: não sou capaz de guardá-lo devido à minha fraqueza e inconstância, por causa do grande número e da malícia de meus inimigos que me atacam dia e noite. Ai de mim! Se se vêem todos os dias os cedros do Líbano caírem na lama, e águias, que se elevam até o sol, se tornarem aves noturnas; também miljustos caem à minha esquerda e dez mil à minha direita; porém minha poderosa, e muito poderosa Princesa, sustentai-me que temo cair; guardai todos os meus bens, que tenho medo de que me roubem; eu confio a Vós em deposito tudo o que possuo:
Depositum custodi. — Scio cui credidi: Sei bem quem sois, eis porque me confio todo a vós; sois fiel a Deus e aos homens, e não permitireis que pereça nada do que vos foi confiado; sois poderosa, e nada pode prejudicar, nem arrebatar o que tendes nas mãos”. Ipsam sequens non devias; ipsam rogans non desperas; ipsam cogitans non erras; ipsa tenente, non corruis; ipsa protegente, non metuis; ipsa duce, non fatigaris; ipsa propitia, pervenis. (São Bernardo, Inter flores, cap. 135, De MariaVirgine, pa. 2150).
E noutro: Detinet Filium ne percutiat; detinet diabolum NE noceat; detinet virtutes ne fugiant; detinet merita ne pereant; detinet gratias ne effluant. São as palavras de São Bernardo, as quais exprimem em substância tudo o que acabo de dizer. Quando não houvesse senão esse motivo para excitar-me a esta devoção, como sendo o meio seguro de me conservar e progredir mesmo, na graça de Deus, eu deveria arder de entusiasmo por ela.
É a verdadeira libertação da nossa alma.
6º) Esta devoção torna a alma verdadeiramente livre, daquela liberdade dos filhos de Deus. Como, por amor de Maria, voluntariamente nos reduzimos à escravidão, esta querida Senhora, em reconhecimento, alarga e dilata-nos o coração, e faz-nos caminhar a passo de gigante no caminho dos mandamentos de Deus. Ela remove o tédio, a tristeza e o escrúpulo. Foi esta devoção que Nosso Senhor ensinou à Madre Inês de Langeac, falecida em odor de santidade, como meio seguro para sair das grandes penas e perplexidades em que se achava. “Faz-te, disse-lhe Ele, escrava de minha Mãe e acorrenta-te”, o que ela fez; e, no mesmo instante, todas as suas penas cessaram!
É seguir o conselho da Igreja e o exemplo dos santos.
Para dar autoridade a esta devoção, seria necessário citar aqui todas as bulas e as indulgências dos Papas e os mandamentos dos Bispos a seu favor, as confrarias estabelecidas em sua honra, o exemplo de diversos santos e grandes personagens que a praticam; todavia passo tudo em silêncio.
D – PRÁTICAS INTERIORES DA SANTA ESCRAVIDÃO SEU ESPÍRITO E SEUS FRUTOS
1. Sua formula “única” de atividade espiritual e seu espírito.
Sua fórmula.
Disse eu, a seguir, que esta devoção consiste em praticar todas as ações com Maria, em Maria, por Maria e para Maria.
Seu espírito de dependência interior de Jesus e Maria. Adquirir esse espírito e perseverar nele.
Não basta nos havermos dado uma vez a Maria, na qualidade de escravo; não basta mesmo fazê-lo todos os meses, todas as semanas: seria uma devoção demasiado passageira e não elevaria a alma à perfeição a que é capaz de se elevar. Não há muita dificuldade em inscrever-se numa confraria, adotar esta devoção e dizer algumas orações vocais todos os dias, como se prescreve; grande dificuldade é entrar no espírito desta devoção, que é de tornar uma alma inteiramente dependente escrava da Ssma. Virgem e de Jesus por Ela. Encontrei muitas pessoas que com ardor admirável se puseram sob sua santa escravidão, porém exteriormente; raros encontrei que tivessem o espírito e ainda menos, que houvessem perseverado.
2. As quatro diretivas de sua família.
Agir “COM” Maria.
A pratica essencial desta devoção em fazer todas suas ações com Maria, quer dizer tomar a Santa Virgem como modelo perfeito de tudo o que se deva fazer.
Condições prévias: enuncia e união de intenção que entregam a alma à ação de Maria.
Por isso que antes de empreender qualquer coisa é necessário renunciar a si próprio e à sua maneira de ver, é necessário aniquilar-se diante de Deus, como incapaz por si de qualquer bem sobrenatural e de qualquer ação útil para a salvação; é necessário recorrer à Ssma. Virgem, e unir-se a Ela e às suas intenções, embora desconhecidas; é necessário unir-se por Maria às intenções de Jesus Cristo, ou seja, colocar-se como um instrumento nas mãos da Ssma. Virgem, a fim de que seja ela quem aja em nós, de nós, e para nós, como bem lhe parecer, para maior glória de seu filho, e, por seu Filho Jesus, para maior glória do Pai: de modo que não se pratique vida interior e operação espiritual senão na dependência dela.
Agir em Maria
2º) É necessário fazer todas as coisas em Maria, isto é, acostumar-se pouco a pouco a recolher-se no interior de si mesmo, para formar uma pequena idéia ou imagem espiritual da SSma.Virgem. Ela será para a alma o Oratório, onde se farão todas as suas orações a Deus, sem temor de ser repelida; a Torre de Davi, para ai se por, em segurança, contra todos os seus inimigos; a Lâmpada acesa para alumiar todo o interior e arder de amor divino; o Ostensório sagrado para ver a Deus com Ela; e, enfim, seu ÚNICO TUDO junto de Deus e seu refúgio universal. Se a alma reza, será em Maria; se recebe a Jesus, pela Santa Comunhão, ela o colocará em Maria para ai se comprazer; se age, será em Maria; e por toda parte e em tudo fará atos de renuncia de si mesma.
Agir por Maria.
3º) É preciso não ir nunca a Nosso Senhor senão (por Maria), por sua intercessão e seu crédito junto dele, jamais o encontrando sozinho para dirigir-lhe nossas súplicas.
Agir PARA Maria.
É necessário praticar todas as suas ações para Maria, quer dizer que, sendo escravo desta augusta Princesa, e preciso que se não trabalhe mais senão para Ela, para seu proveito e sua glória, como fim próximo, e para a glória de Deus, como fim último. Deve[-se], em tudo o que se faz, renunciar ao amor próprio que, quase sempre, imperceptivelmente se toma por fim, e repetir freqüentemente do fundo do coração: Ó minha querida Senhora, é para vós que vou aqui ou ali, que faço isto ou aquilo, que sofro esta dor ou esta injúria!
3. Três advertências importantes relativas ao espírito da Santa Escravidão.
Não crer que é mais perfeito ir a Jesus diretamente sem passar por Maria
Toma cuidado, alma predestinada, de crer que seja mais perfeito ir diretamente a Jesus, diretamente a Deus em tua operação e intenção; se aí queres ir sem Maria, tua operação, tua intenção será de pouco valor; porém, indo por Maria, é a operação de Maria em ti, e em conseqüência será muito valorizada e digna de Deus.
Não se fazer violência para “sentir e provar” O “Amem” da alma.
E mais, evita fazeres violência para sentir e saborear o que dizes e fazes: diz e faz tudo naquela pura fé que Maria teve na terra, e que Ela te comunicará com o andar do tempo; deixa à tua Soberana, pobre e pequena escrava a vista clara de Deus, os transportes, as alegrias, os prazeres, as riquezas e não tome para ti senão a fé pura, cheia de tédios, de distrações, de aborrecimentos, de aridez; diz: “Amem, assim seja, ao que Maria, minha Senhora, faz no Céu. É o que de melhor faço eu por enquanto.”
Não se inquietar se não se goza ainda da presença de Maria.
Toma bastante cuidado também de não te atormentar por não fruíres da doce presença da Santa Virgem em teu interior. Esta graça não é concedida a todos, e quando Deus, por grande misericórdia, favorece com ela a alguma alma, é-lhe fácil perdê-la, se não for fiel em recolher-se freqüentemente; e se esta desgraça te acontecer, volta docemente e pede perdão à tua Soberana.
4. Frutos maravilhosos desta prática interior da Santa Escravidão.
É ainda, sobretudo, a experiência que os ensinará.
A experiência ensinar-te-á infinitamente mais do que te digo, e acharás, se fores fiel ao pouco que te disse, tanta riqueza e tantas graças neste exercício, que ficarás surpreendido e tua alma toda cheia de alegria.
É necessário, pois, trabalhar por uma prática fiel, a fim de ter em si a alma e o espírito de Maria.
Trabalharemos, pois, alma querida, e façamos de tal maneira que, por esta devoção fielmente praticada, a alma de Maria esteja em nós para se rejubilar em Deus seu Salvador. Aí estão as palavras de Santo Ambrósio: “Sit in singulis anima Mariae ut Magnificet Dominum, sit in singulis spiritus Mariae ut exultet in Deo” E não acreditemos que houve mais glória em habitar no seio de Abraão, que é chamado o Paraíso, do que no seio de Maria, pois em Deus ai pôs o seu trono. São palavras do sábio abade Guerric: “Ne credideris majoris esse felicitais habitare in sinu Abrahae, qui vocatur Paradisus, quam in sinu Mariae in quo Dominus possuit thronum suum”.
A Santa Escravidão estabelece sobretudo a vida de Maria em nossa Alma.
Esta devoção, fielmente praticada, produz uma infinidade de efeitos na alma. Porém o principal — (verdadeiro) dom que as almas possuem, é o de estabelecer aqui na terra a vida de Maria em uma alma, de maneira que não é mais a alma que vive, porém Maria nela: ou a alma de Maria torna-se a sua alma, por assim dizer. Ora, quando por uma graça inefável, porém verdadeira, a divina Maria é Rainha de uma alma, que maravilha não fará Ela aí? Como obreira das grandes maravilhas, particularmente no interior, Ela aí trabalha em segredo, sem conhecimento da própria alma que, se disso tivesse ciência, destruiria a beleza de suas obras.
Maria faz viver incessantemente nossa alma em Jesus, e Jesus em nossa alma.
Como em toda parte é Ela a Virgem fecunda, Ela leva a todo interior, onde está a pureza de coração e de corpo, a pureza em suas intenções e seus desígnios, a fecundidade em boas obras. Não creias, querida alma, que Maria, a mais fecunda de todas as criaturas, e que foi até ao ponde de produzir um Deus, permaneça ociosa em uma alma fiel. Ela a fará viver sem cessar para Jesus Cristo, e Jesus Cristo nela. Filioli mei, quos iterum parturio done formetur Christus in vobis (Gl 4, 19); e se Jesus Cristo é igualmente o fruto de Maria em cada alma em particular como para todos em geral, é particularmente na alma em que Ela está que Jesus Cristo é seu fruto e sua obra prima.
Maria torna-se tudo para nossa alma junto de Jesus.
Enfim, Maria torna-se tudo para essa alma junto de Jesus Cristo: Ela ilumina seu espírito pela fé pura, Ela aprofunda seu coração pela humildade, Ela o dilata e abrasa pela caridade, Ela o purifica por sua pureza, e o enobrece e o engrandece por sua maternidade. Porém em que me detenho? Só a experiência ensina essas maravilhas de Maria, que são incríveis para as pessoas sábias e orgulhosas, e mesmo para o comum dos devotos e devotas.
5. Papel da Santa Escravidão no fim dos tempos.
É por Maria que o Reino de Jesus chegará ao fim dos tempos.
Como foi POR Maria que Deus veio ao mundo pela primeira vez, na humilhação e no aniquilamento, não se poderia também dizer que é POR Maria que Deus virá uma segunda vez, como toda a Igreja espera, para reinar em toda parte e para julgar os vivos e os mortos ? Saber como isso se fará, e quando se fará, quem o sabe? Mas sei bem que Deus, cujos pensamentos estão mais afastados dos nossos do que o céu está da terra, virá em um tempo e da maneira mais inesperada pelos homens, mesmo dos mais sábios e dos mais entendidos na Sagrada Escritura, que é, aliás, bastante obscura a este respeito.
É pela Santa Escravidão, praticada pelos seus grandes santos, que Maria trará o Reino definitivo de Jesus.
Deve-se ainda crer que para o fim dos tempos, e talvez mais cedo do que se pensa, Deus suscitará grandes cheios do Espírito Santo, e do espírito de Maria, pelos quais esta divina Soberana fará grandes maravilhas no mundo, para destruir o pecado e estabelecer o reino de Jesus Cristo, seu Filho, sobre o mundo corrompido; e é por meio desta devoção à Ssma. Virgem, que não faço senão esboçar e diminuir por minha fraqueza, que essas santas personagens conseguirão tudo.
E – PRÁTICAS EXTERIORES DA SANTA ESCRAVIDÃO
Sua importância
Além da prática interior desta devoção, de que acabamos de falar, existem as exteriores que não se devem omitir nem descuidar.
A consagração e sua renovação
A primeira é a de se dar a Jesus Cristo em qualquer dia memorável pelas mãos de Maria, da qual no tornamos escravos, e de nessa intenção comungar, nesse dia, passando-o em oração: consagração que se renovará pelo menos todos os anos, no mesmo dia.
Oferecimento de um tributo à Santa Virgem
A segunda prática é a de oferecer todos os anos, no mesmo dia, um pequeno tributo à Santa Virgem, em sinal de sujeição e dependência; sempre foi essa a homenagem dos escravos aos seus senhores. Ora, esse tributo é, ou alguma mortificação, alguma esmola, alguma peregrinação, ou algumas orações. O bem-aventurado Marin, segundo o testemunho de seu irmão, São Pedro Damião, se disciplinava publicamente todos os anos, no mesmo dia, diante de um altar da Santa Virgem. Não se pede nem se aconselha tal fervor; mas se não se dá muito a Maria, deve-se ao menos oferecer o que se apresenta com coração humilde e reconhecido.
A celebração especial da festa da Anunciação
A terceira é de celebrar todos os anos, com uma devoção particular, a festa da Anunciação, que é a festa principal desta devoção, a qual foi estabelecida para honrar e imitar a dependência em que o Verbo eterno se colocou nesse dia, por nosso amor.
A recitação da “Pequena Coroa” e do “Magnificat”
A quarta prática exterior é de rezar todos os dias, sem obrigação de pecado se se deixar, a Pequena Coroa da Santa Virgem, composta de três Padre-Nossos e de doze Ave-Marias; e recitar freqüentemente o Magnificat, que é o único cântico que temos de Maria, para agradecer a Deus os seus favores e atrais novos; sobretudo não se deve deixar de rezar depois da Santa Comunhão, como o sábio Gerson: crê que a mesma Santa Virgem fazia após a comunhão.
O uso da correntinha
A quinta consiste em usar uma pequena corrente benta no pescoço, ou no braço, ou no pé ou atravessada no corpo. Esta prática pode omitir completamente, sem interessar fundamentalmente a esta devoção; seria, contudo, pernicioso desprezá-la e condená-la, e perigoso negligenciá-la. Eis as razões para usar este sinal exterior:
1º) para garantir-se das funestas cadeias do pecado original e atual, pelas quais fomos amargurados; 2º) para honrar as cordas e laços amorosos com os quais Nosso Senhor quis ser amarrado, para nos tornar verdadeiramente livres; 3º) como esses são laços de caridade, traham eos in vinculis caritais, lembram-nos que não devemos agir senão movidos dessa virtude; 4º) enfim, recordam nossa dependência de Jesus e de Maria, na qualidade de escravos; daí o costume de usar tais correntes. Vários personagens eminentes, que se fizeram escravos de Jesus e de Maria, estimavam tanto essas correntes que se queixavam de lhes não ser permitido arrastá-las nos pés publicamente, como os escravos dos Turcos.
Ó cadeias, mais preciosos e mais gloriosas do que os colares de ouro e de pedras preciosas de todos os imperadores, pois nos ligam a Jesus Cristo e à sua Santa Mãe, e representam para nós suas gloriosas marcas e librés! É preciso notar que é conveniente que as correntes, se não forem de prata, sejam ao menos de ferro, por causa da comodidade. Não se deve deixá-las nunca durante a vida, a fim de que elas nos possam acompanhar até o dia do julgamento.
Que alegria, que glória, que triunfo para um fiel escravo, no dia do julgamento, que seus ossos, ao som da trombeta, se levantem da terra ligados ainda pela corrente da escravidão que, aparentemente, não estará apodrecida! Fortemente animado de tal pensamento, não deve deixá-la um devoto escravo, em tempo algum, por mais incômoda que seja para a natureza.
ORAÇÃO A JESUS
Meu amável Jesus, permiti que me dirija a vós para testemunhar o meu reconhecimento pela graça que me concedestes, dando-me a vossa santa Mãe pela devoção da escravidão, para ser minha advogada junto de vossa Majestade, e meu suplemento universal em minha grandíssima miséria. Ai de mim! Senhor, sou tão miserável, que sem esta boa Mãe estaria irremediavelmente perdido. Sim.
Maria me é necessário junto de vós, em toda parte: necessária para vos aplacar em vossa justa cólera, pois vos tenho ofendido todos os dias; necessária, para sustar os castigos eternos de vossa justiça, que mereço; necessária para contemplar-vos, falar-vos, rogar-vos, aproximar-me de vós e vos agradar; necessária para salvar minha alma e a dos outros; necessária, em uma palavra, para fazer sempre a vossa vontade e procurar em tudo a vossa maior glória. Ah! quem me dera publicar por todo o universo esta misericórdia que tivestes para comigo!
E que todo o mundo soubesse que sem Maria já estaria condenado! Pudesse eu render-vos dignas ações de graças por tão grande benefício! Maria está em mim, haec facta est mihi, Oh! Que tesouro! Que consolo! E eu não seria, depois disso, todo dela? Que ingratidão, meu Salvador amado! Enviai-me a morte antes que me aconteça tal desgraça: pois prefiro morrer que viver sem ser todo de Maria. Mil e mil vezes tomei-a, com S.João Evangelista ao pé da cruz, por todo o meu bem! e outras tantas vezes dei-me a Ela; mas se até agora não o fiz bem, conforme desejos, ó Jesus amado, faço-o agora como quereis que o faça, e se vedes em minha alma e em meu corpo algo que não pertença a essa augusta Princesa eu vos rogo que o arranqueis e o jogueis para longe de mim, pois que o que não é de Maria não é digno de vós.
INVOCAÇÃO FINAL AO ESPÍRITO SANTO
Ó Espírito Santo! concedei-me todas essas graças e plantai, regai e cultivai em minha alma a amável Maria, que a Arvore da vida verdadeira, a fim de que cresça, floresça e suscite frutos de vida com abundância. Ó Espírito Santo! dai-me uma grande devoção e uma grande inclinação para com vossa divina Esposa, um grande apoio sobre seu seio maternal e recurso contínuo à sua misericórdia, a fim de que nela formeis em mim a Jesus Cristo, grande e poderoso, até à plenitude de sua idade perfeita. Assim seja.
ORAÇÃO A MARIA SANTÍSSIMA
Eu vos saúdo, ó Maria, Filha bem amada do Pai Eterno; eu vos saúdo, ó Maria, Mãe admirável do Filho; eu vos saúdo, o Maria, Esposa fidelíssima do Espírito Santo; eu vos saúdo, ó Maria, minha Mãe querida, minha amável Senhora e minha poderosa Soberana; eu vos saúdo, minha alegria, minha glória, meu coração e minha alma! Vos sois inteiramente minha por misericórdia e eu sou todo vosso por justiça; e ainda não o sou suficientemente; eu me dou inteiramente a vós; novamente, na qualidade de escravo eterno, sem nada reservar para mim nem para outrem.
Se vedes ainda em mim alguma coisa que vos não pertença, eu vos suplico que o tomeis neste momento, e vos torneis a Senhora absoluta de minhas forças; destruí, desenraizai e aniquilai tudo o que desagrade a Deus; e implantai, incrementai e operai tudo o que vos agrade. Que a luz de vossa fé dissipe as trevas de meu espírito; que vossa humildade profunda tome o lugar do meu orgulho; que vossa contemplação sublime detenha as distrações de minha imaginação errante; que vossa vista continua de Deus encha de sua presença minha memória; que o incêndio da caridade de vosso Coração dilate e abrase a tibieza e a frieza do meu, que vossas virtudes tomem o lugar de meus pecados; que vossos méritos sejam meu ornamento e meu suplemento diante de Deus.
Enfim, ó minha Mãe bem amada, fazei, se for possível, que eu não tenha outro espírito senão o vosso para conhecer a Jesus Cristo e sua divina vontade; que eu não tenha outra alma senão a vossa para louvar e glorificar o Senhor; que eu não tenha outro coração senão o vosso para amar a Deus com um amor puro e ardente como o vosso. Não vos peço visão, nem revelações, nem gostos, nem prazeres mesmo espirituais.
Vós é que vedes claramente sem trevas; provais claramente, sem amargor; triunfais gloriosamente à direita de vosso Filho no céu, sem nenhuma humilhação; ordenais de uma maneira absoluta aos Anjos, aos homens e aos demônios, sem que se vos possa resistir, dispondo, enfim, segundo a vossa vontade, de todos os bens de Deus, sem reserva alguma. Eis o divinal Maria, a melhor parte que o Senhor vos deu e que nunca vos será tirada; com o que sobremaneira me alegro. De minha parte, cá em baixo, não quero absolutamente outra alegria que a que tivestes; a de crer simplesmente, sem nada sentir nem ver; a de sofrer alegria, sem consolo das criaturas; a de morrer continuamente a mim mesmo, sem alívio algum, trabalhar denotadamente até a minha morte, para vós, sem nenhum interesse, como ao mais vil de vossos escravos.
O único favor que vos peço, por pura misericórdia , é que todos os dias e momentos da minha vida, eu diga três vezes Amem: Assim seja, a tudo o que fizestes na terra, quando aqui viveis; Assim seja, a tudo o que fazeis presentemente no céu; Assim seja, a tudo o que fazeis em minha alma, a fim de que não haja senão vós a glorificar plenamente a Jesus em mim no tempo e na eternidade. Assim seja.
A CULTURA E O CRESCIMENTO DA ÁRVORE DA VIDA ou A MANEIRA DE FAZER VIVER E REINAR MARIA EM NOSSAS ALMAS
Nota do Editor
Depois de nos haver revelado o segredo da Santidade, que consiste em dar-se todo inteiro na qualidade de escravo a Maria e a Jesus por ela; e em fazer todas as coisas com Maria, em Maria e para Maria, São Luiz Maria quer munir de um Código de vida prática a alma de boa vontade que Deus atrai pelo caminho da santa escravidão. Este caminho é sublime: é a vida dos mais perfeitos acessível aos humildes. Como viver, porém, praticamente uma vida assim? Que fazer? Que conduta seguir? É a estas perguntas formuladas por muitas almas que aqui responde São Luiz Maria de Montfort, comparando a santa escravidão à árvore da vida plantada pelo Espírito Santo em nossa alma:
1- A Santa Escravidão de amor é a verdadeira Árvore da vida.
Compreendeste, alma predestinada, pela operação do Espírito Santo, o que acabo de dizer? Agradece-o a Deus! É um segredo desconhecido de quase todos. Se achaste o tesouro escondido no campo de Maria, a pérola preciosa do Evangelho, é preciso vender tudo para adquiri-la; é necessário o sacrifício de ti mesmo nas mãos de Maria, e que alegremente te percas nela para aí encontrar somente Deus. Se o Espírito Santo plantou em tua alma a verdadeira Árvore da vida, que é a devoção que acabo de explicar, é preciso que a cultives com o máximo cuidado, a fim de que frutifique no devido tempo. Esta devoção é o grão de mostarda de que fala o Evangelho, o qual, sendo, ao que parece, o menor de todos os grãos, torna-se todavia bem grande e se eleva tão alto que as aves do céu, quer dizer os predestinados, aí fazem o seu ninho e repousam à sombra durante o calor do sol e aí se escondem, em segurança, dos animais ferozes.
2- A maneira de cultivá-la.
Eis, alma predestinada, a maneira de cultivá-la:
Nenhum apoio humano
1º) Sendo esta árvore plantada em um coração bem fiel, quer estar em pleno vento, sem nenhum apoio humano; sendo divina, quer estar sempre sem nenhuma criatura, a qual poderia impedi-la de elevar-se para seu princípio que é Deus. Assim, não se deixe absolutamente apoiar-se em sua indústria ou em seus talentos puramente naturais, ou no crédito ou na autoridade dos homens: é necessário recorrer a Maria e apoiar-se em seu socorro.
Olhar contínuo da alma.
2º) É preciso que a alma, na qual esta está árvore plantada, esteja incessantemente ocupada como um bom jardineiro, a cuidá-la e a repará-la. Pois esta árvore, sendo viva e devendo produzir um fruto de vida, quer ser cultivada e aumentada por um contínuo olhar e contemplação da alma, e conseqüentemente uma alma perfeita há de nela pensar continuamente, dela fazer sua principal ocupação.
Violência a si próprio
3º) É preciso arrancar e cortar os cardos e os espinhos que com o tempo poderiam sufocar esta árvore, ou impedi-la de produzir fruto; quer dizer, ser fiel em cortar e podar, pela mortificação e violência a si próprio, todos os PRAZERES INÚTEIS e as vãs ocupações com as criaturas; ou por outra, crucificar a carne, guardar o silêncio, mortificar os sentidos.
Nada de amor próprio.
4º) É necessário velar para que as lagartas não a prejudiquem em nada. Essas lagartas são o amor de si mesmo e das comodidades, as quais comem as folhas verdes e as belas esperanças que a Árvore tinha do fruto: pois o amor de si mesmo e o amor de Maria não se toleram absolutamente.
Horror ao pecado.
5º) Não se deve deixar que as feras se aproximem dela. Essas feras são os pecados, que poderiam matar a Árvore da vida pelo simples contato; nem mesmo seu hálito deve atingi-la, quer dizer os pecados veniais, que são sempre muito perigosos se não se faz caso deles.
Fidelidade aos exercícios
É necessário regar continuamente essa árvore divina com a comunhão, a missa e outras orações públicas e particulares; sem o que essa árvore deixaria de frutificar.
Paz nas provações.
6º) Não nos devemos preocupar se for sacudida pelo vento, pois é necessário que a combata o vento das tentações para faze-la tombar, que as neves e as geadas a rodeiem para perdê-la; quer dizer que esta devoção à Santa Virgem será necessariamente atacada e contradita; porém desde que se persevere em cultivá-la, não há nada a temer.
3- O fruto da Árvore da vida é o amável e adorável Jesus.
Alma predestinada, se tu cultivas assim a tua Árvore da vida, plantada de novo pelo Espírito Santo em tua alma, eu te asseguro que em pouco tempo crescerá tão alto que as aves do céu ai habitarão, e tornar-se-á tão perfeita que afinal dará seu fruto de honra e de graça a sem tempo, quer dizer o amável e adorável Jesus que sempre foi e que será sempre o único fruto de Maria. Feliz uma alma na qual Maria, a Árvore da vida, é plantada; mais feliz aquela na qual ela cresceu e floresceu; felicíssima aquela em que Ela dá seu fruto; porem a mais feliz de todas é aquela que aprecia e conserva seu fruto até a morte e nos séculos dos séculos. Assim seja. Qui tenet, teneat
DEUS SÓ CONSAGRAÇÃO DE SI MESMO À JESUS CRISTO, A SABEDORIA INCARNADA, PELAS MÃOS DE MARIA
Advertência do Editor
São Luiz de Montfort pede, aos que querem fazer esta consagração, que se preparem por trinta dias de exercícios espirituais (compatíveis de resto com as ocupações da vida quotidiana). “Após haver, diz ele, empregado doze dias pelo menos a esvaziar-se do espírito do mundo, contrário ao de Jesus Cristo, empregarão três semanas em encher-se de Jesus Cristo pela Ssma. Virgem; a primeira, em pedir o conhecimento de si mesmos; a segunda, em conhecer Jesus Cristo. “No dia convencionado, e após a comunhão, recitarão a fórmula de consagração, assinando-a no mesmo dia. “Será bom que paguem algum tributo a Jesus Cristo e a sua Santa Mãe. Recomenda-se insistentemente que se inscrevam no registro da Arquiconfraria de Maria, Rainha dos corações, instituída especialmente para reunir os escravos de Jesus e de Maria. “Uma vez feita esta consagração, é preciso vivê-la e renová-la freqüentemente. “Nunca, aliás, se fará da mesma maneira. As palavras, sem dúvida, permanecerão as mesmas, porém o sentido será tanto mais profundo, e seu alcance tanto maior quanto mais a alma se tenha exercitado nesta sublime espiritualidade por uma dependência mais efetiva a todas as vontades de Jesus e de Maria. “Esta oblação é, com efeito, algo que deve estar vivo e a se desenvolver constantemente.”
CONSAGRAÇÃO
Oração à divina Sabedoria.
Ó Sabedoria eterna e encarnada! Ó amabilíssimo e adorável Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Filho único do PAI ETERNO e de MARIA, sempre VIRGEM! Adoro-Vos profundamente no seio e nos esplendores de Vosso Pai, durante a eternidade, e no seio virginal de Maria, Vossa digníssima MÃE, no tempo de Vossa encarnação. Dou-Vos graças, porque Vos aniquilastes, tomando a forma de escravo para me tirar da cruel escravidão do demônio; eu Vos louvo e glorifico porque Vos quisestes submeter a MARIA, Vossa santa Mãe, em todas as coisas, a fim de me tornar, por Ela, Vosso fiel escravo. Mas, ao de mim! Ingrato e infiel que sou, não guardei os votos e as promessas que Vos fiz solenemente em meu Batismo: absolutamente não cumpri as minhas obrigações; não mereço se chamado Vosso filho nem Vosso escravo, e, como não há nada em mim que não mereça Vossa repulsa e Vossa cólera, não ouso mais por mim mesmo aproximar-me de Vossa santa eaugusta MAJESTADE. Por isso é que recorro à intercessão e à misericórdia de Vossa Ssma. Mãe, que me destes por MEDIANEIRA junto de vós, e é por seu intermédio que espero obter de Vós a contrição e o perdão de meus pecados, a aquisição e a conservação da Sabedoria. Oração a Maria Santíssima
Eu vos saúdo, pois ó MARIA Imaculada, tabernáculo vivo da divindade, onde a SABEDORIA eterna escondida quer ser adorada pelos anjos e pelos homens; Eu vos saúdo, ó Rainha do Céu e da terra, a cujo império TUDO está sujeito: tudo o que está abaixo de Deus;
Eu vos saúdo, ó Refugio seguro dos pecadores, cuja misericórdia não faltou a ninguém; Satisfazei os desejos que tenho da DIVINA SABEDORIA e recebei para tal os desejos e os oferecimentos que minha baixeza vos apresenta. Consagração propriamente dita, dirigida a Maria Santíssima:
Eu, N….., fiel pecador, renovo e ratifico hoje, em vossas mãos, os votos do meu batismo: renuncio para sempre a Satanás, suas pompas e suas obras, e dou-me inteiramente a JESUS CRISTO, Sabedoria encarnada, para carregar a minha cruz, seguindo-o todos os dias de minha vida, a fim de que lhe seja mais fiel do que tenho sido até aqui. Eu vos escolho hoje, em presença de toda a corte celeste, para minha MÃE e SENHORA. Eu vos entrego e consagro, na qualidade de ESCRAVO, meu corpo e minha alma, meus bens interiores e exteriores, e o próprio valor de minhas boas ações passadas, presentes e futuras, deixando-vos INTEIRO E PLENO DIREITO de dispor de mim e de tudo o que me pertence, sem exceção, conforme a vossa vontade, para maior glória de Deus, no tempo e na eternidade. Oração final a Maria Santíssima:
Recebei, ó Virgem benigna, esta pequena oferta de minha ESCRAVIDÃO, em honra e em união com a submissão que a Sabedoria eterna quis ter a vossa maternidade: em homenagem ao poder que tendes ambos sobre este vermezinho e miserável pecador, e em ações de graças [pelos privilégios] com que a Ssma. Trindade vos favoreceu.
PROTESTO que quero de hoje em diante, como vosso verdadeiro escravo, procurar vossa honra e obedecer-vos em todas as coisas. Ó MÃE ADMIRÁVEL! Apresentai-me a vosso querido FILHO, na qualidade de ESCRAVO eterno, a fim de que, havendo-me resgatado por vós, Ele me receba por vós. Ó MÃE DE MISERICÓRDIA! Fazei-me a graça de obter a Verdadeira Sabedoria de Deus, e de me colocar, por isso, no número dos que vós amais. Ensinais e conduzis, dos que alimentais e protegeis como vossos FILHOS e vossos ESCRAVOS. Ó VIRGEM FIEL!
Tornai-me em todas as coisas um tão perfeito discípulo, imitador e escravo da Sabedoria encarnada, JESUS CRISTO vosso Filho, que eu chegue , por vossa intercessão, a vosso exemplo, à plenitude de sua idade sobre a terra, e de sua glória nos céus. Assim seja. Qui potest capere, capiat Quis sapiens et intelliget haec?
